Psicologia
Fisiológica

PELO
Prof. Dr. Aníbal
Silveira («1902 V1979 )
Chefe de Clínica
Psiquiátrica do Hospital de Juqueri, S. Paulo.
Docente-livre de
Psiquiatria, Universidade de São Paulo
|
BREVE NOTA HISTÓRICA
Desde meado do século XIX a psicologia vem firmando mais
decisivamente a tendência para filiar os processos psíquicos ao dinamismo
cerebral. Passaremos em revista somente as fases principais dessa
orientação, e em traços rápidos para não fugir aos limites da presente obra.
Wundt — Coube ao grande
psicólogo de Leipzig romper com a orientação meramente especulativa da
introspecção, ao erigir a fisiologia cerebral em método de psicologia
fisiológica. O próprio termo "psicologia fisiológica" como expressão
de conceito doutrinário deve ser a ele atribuído, com as ressalvas que adiante
mencionaremos. Nas "Vorlesungen über die Menschen-und Tierseele"9,
em 1863, e principalmente nos "Grumdzüge der physiologischen
Psychologie", em 1874, 1880, não somente Wundt estabelece clara distinção
entre várias categorias de fenômenos psíquicos, mas se detém largamente nas
correlações entre função e estrutura — esta baseada na anatomia cerebral de
Meynert.
E mais, chega a estabelecer as sedes cerebrais correspondentes
às distintas funções.
Distingue Wundt as seguintes fases no trabalho mental: 1º)
as sensações, que vão integrar as representações mentais; 2º)
estas, quando referentes ao estímulo real constituirão percepções e
quando atinentes à imagem subjetiva denominar-se-ão por isso concepções imaginárias; 3º) a seu turno a
percepção, passiva ou ativa, dará origem a noções subjetivas, cuja
gradação vai da noção complexa à noção geral e às formas
de intuição; há ainda a considerar 4º) o conceito, expressão de
correlações sistemáticas, isto é, conhecimentos deduzidos.
Caracteriza como apercepção a entrada da percepção para o foco central da
consciência. Pelo aspecto localizatório, atribui aos "centros
sensoriais" do córtex cerebral a função de percepção, ao passo que a
apercepção constituiria atributo de outro órgão mais especializado, situado na
região frontal do cérebro; a sensação propriamente dita estaria afeta aos
núcleos cinzentos intracerebrais subordinados ao mantocortical.
O grande passo efetuado pela psicologia sob o influxo de Wundt
foi liberar-se do jugo metafísico. Todavia o eminente psicólogo não pôde escoimá-la
de alguns vícios, enquadráveis em dois grupos:
1º) o de endossar a doutrina dos "centros cerebrais"
— já então desacreditada perante a verdadeira fisiologia do cérebro — e
utilizá-la para estabelecer o paralelismo psicofisiológico;
2º) a redução de todos os atributos subjetivos, inclusive
sentimentos, emoção, volição, a fenômenos de consciência, isto é, de
apercepção.
Contra este desvio fundamental logo se erguem os fatos do
próprio ramo psicológico aqui mencionado, urdidos sob orientação mais ampla.
Ziehen — "As
doutrinas aqui professadas divergem acentuadamente da Wundt, que domina os
centros alemães, e se aproximam de modo íntimo da chamada psicologia
associativa dos ingleses". É como se exprime desde 1880, no prefácio da
"Physiologische Psychologie", o psicólogo e psiquiatra de Jena. E
pouco adiante: "Ao introduzir na interpretação dos processos psíquicos e
recurso (Hilfsgrösse) particular da chamada apercepção, Wundt ladeia numerosas
dificuldades na explicação do fenômeno: onde aparece um fato psicológico
dificilmente explicável, para ali empurra ele a apercepção". Na orientação
de Ziehen "a psicologia se atém exclusivamente aos fenômenos
psíquicos a que correspondem processos paralelos na fisiologia
cerebral". Ademais, como psiquiatra recorre ele aos conhecimentos
anatomoclínicos, aos dados da experimentação em animais e à dissociação de
funções estabelecida nas doenças mentais, ao encarar os problemas psicológicos.
É, a nosso ver, o que lhes empresta colorido humano, colocando-os em plano construtivo.
Da mesma forma que Wundt, distingue Ziehen da sensação a
representação e a percepção. Em vez de utilizar, porém, o termo
"apercepção" de Leibnitz e Wundt, designa como percepção
(Wahrnehmung) o fenômeno de tornar-se consciente a sensação. Situa tais
fenômenos, bem como os conceitos — concretos e abstratos — em regiões distintas
do córtex cerebral. Recorre, aliás para isto, a noções neuranatômicas muito
mais diferenciadas do que as utilizadas então por Wundt. Também merece relevo a
maneira pela qual define os afetos e o tono afetivo não apenas como
independentes dos processos intelectuais senão também como reguladores destes e
das ações. Apesar de adquirir mais sólida base, anatomoclínica e experimental,
a psicologia fisiológica não conseguiu desvencilhar-se, com Ziehen, de
relevantes senões. Por outro lado, acham-se aí confundidas funções subjetivas
de conação e atos objetivos; por outro lado, consideram-se expressões
necessariamente idênticas "psíquico" e "consciente". E
Ziehen acentua: " Para nós, processos psíquicos inconscientes constituem
de início conceito totalmente vazio, que ainda enfrentaremos mais tarde como
hipótese, porém desde já com grande desconfiança ("aber von vornherrein
ein grosses Misstrauen entgegenbringen").
Essa mesma posição doutrinal se mantém na 12ª edição,
largamente refundida, publicada quase 30 anos mais tarde. Não obstante Ziehen
discute aí farta documentação bibliográfica relativa a fenômenos conscientes,
inconscientes e subconscientes; e em numerosos passos cita McDougall, o qual
tão claramente distingue das ações explícitas o componente conativo.
Dois novos rumos trouxeram a psicologia fisiológica até o
conceito atual. Na escola personificada em Ribot passou ela a se apoiar de
preferência nos dinamismos funcionais, deixando de lado os aspectos
meramente estáticos das correlações psico-estruturais. E as concepções
eminentemente inovadoras de Pavlov lhe trouxeram nova compreensão, baseada
agora em experimentação animal de tipo altamente diferenciado.
Ribot — O característico
fundamental do método de Ribot advém da doutrina fundada por Augusto Comte, no
sentido de que o exame dos fenômenos patológicos permite aperfeiçoar os
conhecimentos relativos ao estado normal correspondente. Reconhecem-no — como
também em relação a Claude Bernard, igualmente inspirado em Comte — com razão
Achilles-Delams e Boll ao apreciarem o método psicológico: "Théodule
Ribot, que, por intermédio de Taine, se liga a Augusto Comte, o mestre da
filosofia contemporânea, exprime-se por forma análoga: "O método
patológico utiliza, ao mesmo tempo, a observação pura e a experimentação. É um
poderoso meio de investigação, que tem sido fértil em resultados. Com efeito, a
doença é uma experimentação da ordem mais sutil...instituída com processos de
que a arte humana não dispõe... A fisiologia e a patologia — tanto as do
espírito como as do corpo —, não se opõe uma a outra como coisas antagônicas,
mas antes como duas partes de mesmo todo".
Embora também Ziehen, e mesmo de certa forma Wundt, houvessem
recorrido aos distúrbios mentais ao analisar os fenômenos da psicologia, cabe a
Ribot prioridade em recorrer àqueles como parte integrante do método de
pesquisa psicológica. Ademais, dois traços distanciam da obra psicológica dos
autores precedentes à construção do grande psicólogo francês: a supremacia
concedida aos sentimentos na estrutura da personalidade e a concepção dinâmica
do inconsciente e dos fenômenos de consciência.
Em "La psicologie des sentiments", não apenas
caracteriza as emoções, que classifica em simples e complexas, mas analisa sob
o aspecto dinâmico os sentimentos propriamente ditos; e distingue no instinto
de conservação manifestações fisiológicas, outras defensivas — medo, e
ofensivas — cólera; da mesma forma que reserva capítulos especiais aos sentimentos
"sociais", "morais" e "religiosos".
"Lembraremos que para nós — diz Ribot —, a consciência
não é uma entidade, mas uma soma de estados, cada um dos quais constitui
fenômeno particular ligado a certas condições da atividade cerebral, o qual
existe quando estas existem, falta se elas faltam, desaparece quando elas
desaparecem". E frisa adiante a relatividade dos estados de consciência na
unidade subjetiva: "A unidade subjetiva (du moi), no sentido psicológico,
consiste pois na coesão, durante um tempo dado, entre certo número de estados
claros de consciência — acompanhados de outros menos claros — e uma multidão de
estados fisiológicos que, sem se acompanharem de consciência como aqueles
congêneres, agem tanto quanto eles e mais que eles".
Ao retomar, ulteriormente, o problema do trabalho intelectual
de abstração, acentua — em contraste com o intelectualismo então dominante nas
teorias psicológicas — o papel psicodinâmico dos processos inconscientes no
próprio raciocínio: "O pensamento simbólico , tem-se repetido
freqüentemente, constitui pensamento por substituição. Esta fórmula não é
admissível senão sob a condição de reconhecer-se que o substituto pressupõe,
exige, a existência contemporânea (actuelle) do substituído. Há substituição
quanto à consciência, não quanto à operação total. Para resumir tudo em uma
palavra: a psicologia da abstração e da generalização é, em grande parte,
psicologia do inconsciente".
Não foi dado a Ribot tirar todas as conseqüências de que o
método psicopatológico é capaz para o conhecimento da psicologia normal.
Atribuímos isto, em parte, à insuficiente análise clínico-psiquiátrica de que
dispunham os psiquiatras na época. A esse respeito são pertinentes as
considerações de Boll e Band, que logo comentaremos. Na maior parte, porém, foi
isso devido a não dominar inteiramente o pensamento médico-filosófico de Comte,
no qual se inspirou, conforme dito. Apreciando a nova senda aberta pelo
psicólogo francês, dizem Boll e Band:
Grande parte da obra de Ribot reflete tais preocupações, mas o
esforço do ilustre psicólogo não podia levar a resultados definitivos senão na
medida em que os fatos patológicos por ele interpretados estavam solidamente
estabelecidos. Ora, nesses fatos podemos distinguir três grupos:
a) Certo número se prende a sínteses que não resistiram à
prova do tempo. Os acasos da vida haviam aproximado Ribot e Charcot; o
psicólogo aceitou as idéias do médico, em particular a teoria da histeria e do
hipnotismo: dessa teoria quase nada subsistiu; e não é difícil conceber que uma
interpretação clínica errônea possa unicamente extraviar o psicólogo que nela
se baseie.
b) Certos outros fatos, clinicamente exatos, se reportavam a
transtornos que desorganizavam a substância nervosa: é o caso principalmente deDoenças
da memória.
c) Outros fatos patológicos, finalmente, como os que Ribot
passa em revista nas Doenças da vontade, fazem supor a existência de uma
patologia dessa "entidade"; ora, parece que tal entidade se esvai
quando procuramos defini-la como função autônoma, e que as pretensas doenças da
vontade não sejam senão casos particulares de mecanismos deficientes.
"Ribot parece, aliás, ter reconhecido que o terreno da
experimentação patológica era muito pouco sólido, pois o abandonou nos ensaios
de síntese, tais a Psicologia dos sentimentos, o Ensaio
sobre a imaginação criadora, a Evolução das idéias gerais; a
despeito da tendência nitidamente acentuada para a pesquisa objetiva dos fatos,
Ribot é por vezes levado aí a interpretações subjetivas, a construções
teóricas, das quais o mínimo que podemos dizer é que não são infirmadas nem
verificadas pelos fatos. Logo, os resultados devidos a Ribot foram limitados
pela insuficiência dos materiais que as ciências médicas
lhe forneciam".17
Cabem a este respeito três observações. Acreditamos que mesmo
com a insuficiência de materiais disponíveis seriam possíveis conclusões mais
aprofundadas, pois Audiffrent, discípulo direto de Comte e médico, construiu na
mesma época (1869, 1874) monumentais estudos sobre as funções cerebrais 8,9.
Igualmente não concordamos com os autores em que Ribot considerasse
"entidades" disposições subjetivas complexas como a vontade: o trecho
que há pouco citamos sobre "estados de consciência",69 revela
claramente o espírito positivo — e atual ainda hoje — do grande psicólogo. E,
finalmente, aquelas construções teóricas a que aludem Boll e Band são
verificáveis pelos fatos clínicos uma vez que se analisem estes mais a fundo e
não apenas pelo significado superficial.
Ribot apontava, de resto, para os inconvenientes de se
tratarem fenômenos subjetivos, biológicos em última análise, por métodos
peculiares então às ciências básicas. Assim, embora reconhecendo as tendências
gerais da psicologia da época para recorrer à experimentação e às aferições
precisas — diretrizes que apreciou com justeza ao analisar as escolas alemãs70 —
, advertia: "Seria precipitado introduzir no estudo dos fenômenos
psíquicos a medida, o cálculo, o método quantitativo, característico das
ciências que atingiram a maturidade".69
Pavlov — Ainda mais
nitidamente que Ribot, estabeleceu o insigne fisiologista de Koltushy — hoje
Pavlov — correlações entre funções psíquicas e dinamismos fisiológicos do
cérebro. Ao precisar as condições para o aprendizado e a assimilação
intelectual, assim define ele os estados de consciência: "Sob esta luz
a consciência aparece como a atividade nervosa de certa parte
dos hemisférios cerebrais que possua em dado instante, nas condições do momento
(present), certa atividade em grau ótimo — provavelmente moderado. Ao mesmo tempo
as restantes partes dos hemisférios permanecem em estado de excitabilidade mais
ou menos atenuada (diminished). Na região cerebral em que há o ótimo de
excitabilidade novos reflexos condicionados se formam facilmente e a
diferenciação se desenvolve com êxito".66
Coerentemente, depois de haver demonstrado à exuberância os
fatores psicológicos da digestão, utilizou Pavlov os reflexos a que chamoucondicionados,
ou condicionais, como método fundamental na experimentação
psicológica: "O estudo dos reflexos condicionados constitui a real,
verdadeira fisiologia dos hemisférios cerebrais, como o estudo da circulação
sanguínea constitui a fisiologia do coração e dos vasos sanguíneos.67 É
justamente nesta particularidade metodológica, em que a atividade cerebral é
investigada no animal intacto e colocado em condições psicológicas precisas que
reside, a nosso ver, a originalidade essencial da escola pavloviana. Os
fenômenos em si mesmos concordam com os que se consideram — sob terminologia
diversa — em outras escolas psicológicas.
Dos atos atinentes à manutenção do indivíduo e da espécie, os
quais por um lado exigem "completa síntese da atividade interna do
organismo... e por outro lado são excitados de modo estereotipado por estímulos
externos e internos precisos e não numerosos" diz Pavlov:
"Denominamo-los reflexos incondicionados especiais e complexos. Outros
lhes atribuem nomes vários: instintos, tendências, inclinações etc. Aos
estímulos para tais atos chamamos, por conseguinte, estímulos incondicionados".67 Mas
qualquer fenômeno natural inteiramente alheio a essa atividade instintiva pode
associar-se, ao acaso ou deliberadamente, ao ato — por exemplo, o de comer.
"Dessa forma o centro subcortical para o reflexo alimentar se excita,
todos os outros estímulos que atingem simultaneamente os mais finos receptores
dos hemisférios parecem visar este centro, direta ou indiretamente, e com ele
podem tornar-se firmemente ligados todos os estímulos que nesse momento caiam
sobre os mais delicados receptores dos hemisférios cerebrais. Ocorre então o
que chamamos reflexos condicionais, isto é, o organismo responde com atividade
complexa bem definida a uma excitação exterior à qual não respondera
previamente".67 Tanto os reflexos condicionais
quanto os incondicionais podem estabelecer-se como seriados ou
como complexos e ser, quanto à dinâmica, ora eficientes,
ora inibidores. Da mesma forma que esses conceitos, os de
dominantes condicionais e incondicionais, de analisadores sensoriais, de
atividade cortical criadora, conservadora ou transformadora, de fase paradoxal,
de inibição transmarginal, podem reconhecer-se, como dissemos, em graus
diversos, em outras correntes doutrinárias. Porém Pavlov os articula em sistema
essencialmente dinâmico; e os entrosa de modo a ligar estreitamente a
psicologia e a fisiologia — de forma que "se realiza o método natural e
inevitável de pesquisa e se fundem finalmente a psicologia e a fisiologia, o
subjetivo e o objetivo — a verdadeira questão que há tanto tempo inquietava o
pensamento humano." 67
Esses vários dinamismos funcionais se estabelecem
hierarquicamente tanto em relação à espécie como no decorrer da evolução
individual. Neste sentido evolutivo, diz Frolov, "a primeira dessas
formações é o sistema dos centros ou gânglios subcorticais, os mais próximos,
adjacentes ao córtex cerebral. Esta é a região dos reflexos ou instintos
incondicionais que em terminologia psicológica se denomina também região das
emoções e dos desejos".38 "Sobre este sistema e
baseado nele se acha o segundo, constituído pelos centros de reflexos
temporários ou condicionados. Como ressalta de tudo quanto dissemos antes, este
sistema — representado pelos sistemas neuronais da substância cinzenta dos
hemisférios cerebrais — tem a vantagem de assegurar uma orientação
consideravelmente mais ampla do organismo e de ligar-lhe a atividade — através
dos sentidos ou órgãos receptores — com todos os fenômenos do mundo
exterior".38 "Nos animais, esta região superior
do córtex representa uma projeção imediata do mundo exterior e é um conjunto de
analisadores. No caso do cérebro humano, não obstante, durante o processo de
desenvolvimento e durante a aquisição da linguagem e a conquista do trabalho
instrumental, aparece outra estrutura fisiológica, quer dizer — um órgão que se forma
com base no supramencionado sistema, que sintetiza e generaliza a atividade das
projeções imediatas e que serve de substrato material para
nova capacidade, de origem mais recente: a capacidade de
abstração".38 Para Pavlov, desejamos acrescentar
aqui, a sede deste terceiro sistema se encontra na região frontal do córtex.
Porém o imortal pesquisador foi além, nesta concepção dos
sistemas de contato com a realidade exterior. Focaliza de modo
extraordinariamente preciso problemas psicológicos que só encontramos
tratados com essa profundidade na escola positivista. Referimo-nos à função da
linguagem como fator de abstração e à instituição da palavra articulada e do
sinal como recurso e como conseqüência deste dinamismo psicológico. "O
mundo animal em evolução — dizia em 1935 — adquiriu ao atingir a fase do homem
um suplemento excepcional ao mecanismo da atividade nervosa. Para o animal, a
realidade é assinalada quase exclusivamente pelos meros estímulos — e os traços
que estes deixam nos hemisférios cerebrais — carreados diretamente para as
células especiais dos receptores do organismo, visual, auditivo e outros. É
isso o que igualmente possuímos sob a forma de impressões, sensações e
concepções a respeito do ambiente, seja o natural e o genérico, seja o social,
com exceção das palavras — audíveis e visíveis. Esse primeiro sistema de
assinalagem da realidade é o mesmo no nosso caso e no caso dos animais. Mas a
palavra constituiu um segundo sistema de assinalagem da realidade, o qual é
peculiar a nós somente, erigindo-se em sinal dos sistemas primários."67 E
acrescenta: "Contudo, é fora de dúvida que as leis essenciais que regem o
desempenho do primeiro sistema de sinais necessariamente regulam também o
segundo, porque se trata de trabalho efetuado pelo mesmo tecido nervoso."
E em outra conferência, ainda com relação à linguagem: "Finalmente
aconteceu que mediante estes novos sinais era designado tudo quanto o ser
humano percebia no ambiente e no seu mundo interno; e semelhantes sinais
começaram a servir-lhe não apenas para comunicar-se com outrem mas também
quando estava a sós.67 E acentua a preponderância da
primeira ordem de sinais, ou seja — de imagens, nos artistas; ao passo que nos
pensadores é a segunda categoria de sinais, os derivados das imagens através da
linguagem, que prevalece. Igualmente analisa a diversa participação de cada um
desses sistemas na estrutura psicológica de grupos étnicos distintos.
Por outro lado, a correlação temporal entre aparecimento da
linguagem e maturação funcional do córtex frontal, seja em sentido
filogenético, seja na evolução do ser humano, permite adequadamente a Pavlov
reconhecer a participação da palavra no processo mental de abstração.
Bibliografia
8. Audiffrent, G. –
Du cerveau et de l’innervation – Dunod, Paris; 1869
9. Audiffrent, G. –
Des maladies du cerveau – Leroux. Paris, 1874.
17. Boll, M. & Baud, F. – La personnalité. Masson. Paris, 1958.
38. Frolov, Y. P. – La actividad cerebral: estado de la teoria
de Pavlov (prólogo y trad. E. Mira y Lopes) a) Lautaro: Buenos Aires,
1942. b) Psique: Buenos Aires, 1961.
66. Pavlov, I. P. – Lectures on conditioned reflexes
(transl. W. H. Gannt). Internat Publishers. New York, 1928.
67. Pavlov, I. P. – Conditioned reflexes and psychiatry
(transl. W. H. Gannt). Internat Publishers. New York, 1941.
69. Ribot, Th. – Les maladies de la personnalité –
Alcan. Paris a) 1885; b) 4ª éd., 1890.
70. Ribot, Th. – La psychologie allemande contemporaine. 4ª
ed. Alcan. Paris, 1892.

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