quinta-feira, 21 de maio de 2015

A psicanálise diante do impasse do amor

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As escutas da Psicanálise

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Homossexualidade na Visão da Psicanálise

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Conceitos da Psicanálise

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Freud e a Psicanalise

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Transferencia

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Perversao, Sexualidade e Psicanalise

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Freud e a Psicanalise

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Diferença entre Psicanalista, Psicologo e Psiquiatra

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Para que serve a psicanalise

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sábado, 29 de novembro de 2014

PSICANALISTA-CBO nº 2515-50

PSICANALISTA
CBO nº 2515-50

CBO – Classificação Brasileira de Ocupações
2515-50 - Psicanalista
Analista (psicanálise
)

Por meio desta publicação o Ministério do Trabalho e Emprego – MTE disponibiliza à sociedade a nova Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, que vem substituir a anterior, publicada em 1994.
Desde a sua primeira edição, em 1982, a CBO sofreu alterações pontuais, sem modificações estruturais e metodológicas. A edição 2002 utiliza uma nova metodologia de classificação e faz a revisão e atualizações completas de seu conteúdo.
A CBO é o documento que reconhece, nomeia e codifica os títulos e descreve as características das ocupações do mercado de trabalho brasileiro. Sua atualização e modernização se devem às profundas mudanças ocorridas no cenário cultural, econômico e social do País nos últimos anos, implicando alterações estruturais no mercado de trabalho.
A nova versão contém as ocupações do mercado brasileiro, organizadas e descritas por famílias. Cada família constitui um conjunto de ocupações similares correspondente a um domínio de trabalho mais amplo que aquele da ocupação.
O banco de dados do novo documento está à disposição da população também em CD e para consulta pela Internet.
Uma das grandes novidades deste documento é o método utilizado no processo de descrição, que pressupõe o desenvolvimento do trabalho por meio de comitês de profissionais que atuam nas famílias, partindo-se da premissa de que a melhor descrição é aquela feita por quem exerce efetivamente cada ocupação.
Estiveram envolvidos no processo pesquisadores da Unicamp, UFMG e Fipe/USP e profissionais do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. Trata-se de um trabalho desenvolvido nacionalmente, que mobilizou milhares de pessoas em vários pontos de todo o País.
A nova CBO tem uma dimensão estratégica importante, na medida em que, com a padronização de códigos e descrições, poderá ser utilizada pelos mais diversos atores sociais do mercado de trabalho. Terá relevância também para a integração das políticas públicas do Ministério do Trabalho e Emprego, sobretudo no que concerne aos programas de qualificação profissional e intermediação da mão de obra, bem como no controle de sua implementação.
2515-50 – Psicanalista – Analista (psicanálise)
Descrição sumária

Estudam, pesquisam e avaliam o desenvolvimento emocional e os processos mentais e sociais de indivíduos, grupos e instituições, com a finalidade de análise, tratamento, orientação e educação; diagnosticam e avaliam distúrbios emocionais e mentais e de adaptação social, elucidando conflitos e questões e acompanhando o(s) paciente(s) durante o processo de tratamento ou cura; investigam os fatores inconscientes do comportamento individual e grupal, tornando-os conscientes; desenvolvem pesquisas experimentais, teóricas e clínicas e coordenam equipes e atividades de área e afins.

Condições gerais de exercício

Os profissionais dessa família ocupacional atuam, principalmente, em atividades ligadas à saúde, serviços sociais e pessoais e educação. Podem trabalhar como autônomos e/ou com carteira assinada, individualmente ou em equipes. É comum os psicólogos clínicos, hospitalares, sociais e neuropsicólogos trabalharem com supervisão. Têm como local de trabalho ambientes fechados ou, no caso dos neuropsicólogos e psicólogos jurídicos, pode ser a céu aberto. Os psicólogos clínicos, sociais e os psicanalistas, eventualmente, trabalham em horários irregulares. Alguns deles trabalham sob pressão, em posições desconfortáveis durante longos períodos, confinados (psicólogos clínicos e sociais) e expostos à radiação (neuropsicólogos) e ruídos intensos. A ocupação psicanalista não é uma especialização, é uma formação, que segue princípios, processos e procedimentos definidos pelas instituições reconhecidas internacionalmente, podendo o psicanalista ter diferentes formações, como: psicólogo, psiquiatra, médico, filósofo etc.

Formação e experiência.

Para os trabalhadores dessa família são exigido o nível superior completo e experiência profissional que varia segundo a formação. Para os psicólogos, de um modo geral, pede-se de um a quatro anos, como é o caso do psicólogo clínico.
Para o psicanalista é necessário, no mínimo, cinco anos de experiência. Os cursos de qualificação também variam de cursos básicos de duzentas a quatrocentas horas-aula, como no caso do psicólogo hospitalar, mais de quatrocentas horas-aula para os psicólogos jurídicos, psicanalistas e neuropsicólogos, até cursos de especialização para os psicólogos clínicos e sociais. A formação desses profissionais é um conjunto de atividades desenvolvidas por eles, mas os procedimentos são diferentes quanto a aspectos formais relacionados às instituições que os formam.

Áreas de Atividades
A – AVALIAR COMPORTAMENTOS INDIVIDUAL, GRUPAL E INSTITUCIONAL.
1. Triar casos;
2. Entrevistar pessoas;
3. Levantar dados pertinentes;
4. Ler processos e prontuários;
5. Observar pessoas e situações;
6. Escutar pessoas ativamente;
7. Investigar pessoas, situações e problemas;
8. Escolher o instrumento de avaliação;
9. Aplicar instrumentos de avaliação;
10. Mensurar resultados de instrumentos de avaliação;
11. Analisar resultados de instrumentos de avaliação;
12. Sistematizar informações;
13. Elaborar diagnósticos;
14. Elaborar pareceres, laudos e perícias;
15. Responder a quesitos técnicos judiciais;
16. Selecionar recursos humanos
17. Devolver resultados (devolutiva);
18. Recrutar recursos humanos para instituições.

B – ANALISAR – TRATAR INDIVÍDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES.

1. Propiciar espaço para acolhimento de vivências emocionais (Setting);
2. Oferecer suporte emocional;
3. Tornar consciente o inconsciente;
4.  Propiciar criação de vínculo paciente-terapeuta;
5.  Interpretar conflitos e questões;
6. Elucidar conflitos e questões;
7.  Promover integração psíquica;
8.  Promover desenvolvimento das relações interpessoais;
9.  Promover desenvolvimento da percepção interna (Insight);
10. Realizar trabalhos de estimulação psicomotora, psicológica e neuropsicológica;
11. Mediar grupos, família e instituições para solução de conflitos;
12. Reabilitar aspectos cognitivos;
13. Reabilitar aspectos psicomotores;
14. Reabilitar aspectos comportamentais;
15. Reabilitar aspectos corporais;
16. Facilitar grupos;
17. Dar alta.

C – ORIENTAR INDIVÍDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES.
1. Propor alternativas de solução de problemas;
2. Esclarecer as repercussões psicológicas decorrentes dos procedimentos médico-hospitalares;
3. Informar sobre desenvolvimento do psiquismo humano;
4. Dar orientação para mudança de comportamento;
5. Aconselhar pessoas, grupos e famílias;
6. Orientar sobre vocações (Orientação vocacional);
7. Orientar grupos profissionais;
8. Orientar sobre plano de carreira;
9. Orientar grupos específicos (Pais, adolescentes etc.);
10. Orientar sobre programas de saúde pública;
11. Orientar as implementações de programas de prevenção na saúde pública;
12. Assessorar instituições
13. Propor intervenções (Encaminhamento);
D – ACOMPANHAR INDIVÍDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES.
1. Acompanhar impactos de intervenções;
2. Acompanhar o desenvolvimento e a evolução de intervenções;
3. Acompanhar a evolução do caso;
4. Acompanhar o desenvolvimento de profissionais em formação e especialização;
5. Acompanhar resultados de projetos;
6. Visitar instituições e equipamentos sociais;
7. Visitar domicílios;
8. Acompanhar visitas multidisciplinares;
9. Participar de audiências;
10. Acompanhar plantões técnicos;
11. Acompanhar plantões de visita do tribunal de justiça;
12. Acompanhar egressos de tratamento.
E – EDUCAR INDIVÍDUOS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES.
1. Estudar casos em grupo;
2. Apresentar estudos de caso;
3. Ministrar aulas;
4. Supervisionar profissionais da área e áreas afins;
5. Supervisionar estágios da área e áreas afins;
6. Realizar trabalhos para desenvolvimento de competências e habilidades profissionais;
7. Formar psicanalistas;
8. Formar especialistas da área;
9. Treinar profissionais da área e afins;
10. Desenvolver cursos para grupos específicos;
11. Confeccionar manuais educativos;
12. Reeducar pessoas para inserção social e familiar;
13. Desenvolver processos de recrutamento e seleção;
14. Desenvolver cursos para profissionais de outras áreas;
15. Propiciar recursos para o desenvolvimento de aspectos cognitivos;
16. Desenvolver projetos educativos;
17. Acompanhar resultados de cursos, treinamentos.
F – DESENVOLVER PESQUISAS EXPERIMENTAIS, TEÓRICAS E CLÍNICAS.
1. Investigar o psiquismo humano;
2. Investigar o comportamento individual, grupal e institucional;
3. Investigar comportamento animal;
4. Definir problema e objetivos;
5. Pesquisar bibliografia;
6. Definir metodologias de ação;
7. Estabelecer parâmetros de pesquisa;
8. Construir instrumentos de pesquisa;
9. Padronizar testes;
10. Coletar dados;
11. Organizar dados;
12. Compilar dados;
13. Fazer leitura de dados;
14. Integrar grupos de estudos de caso.

G – COORDENAR EQUIPES E ATIVIDADES DE ÁREA E AFINS
1. Planejar as atividades da equipe;
2. Programar atividades gerais;
3. Programar atividades da equipe;
4. Distribuir tarefas à equipe;
5. Trabalhar a dinâmica da equipe;
6. Monitorar atividades de equipes;
7. Preparar reuniões;
8. Coordenar reuniões;
9. Coordenar grupos de estudo;
10. Organizar eventos;
11. Identificar recursos da comunidade;
12. Avaliar propostas e projetos;
13. Avaliar a execução das ações.

H – PARTICIPAR DE ATIVIDADES PARA CONSENSO E DIVULGAÇÃO PROFISSIONAL

1. Participar de palestras, debates, entrevistas, seminários, simpósios;
2. Participar de reuniões científicas (Congressos, etc);
3. Publicar artigos, ensaios, livros científicos;
4. Participar de comissões técnicas;
5. Participar de conselhos municipais, estaduais e federais;
6. Participar de entidades de classe;
7. Participar de eventos junto aos meios de comunicação;
8. Divulgar práticas do psicólogo e psicanalista;
9. Fornecer subsídios a estratégias e políticas organizacionais;
10. Fornecer subsídios à formulação de políticas públicas;
11. Fornecer subsídios à elaboração de legislação;
12. Buscar parcerias.

I – REALIZAR TAREFAS ADMINISTRATIVAS

1. Redigir pareceres;
2. Redigir relatórios;
3. Agendar atendimentos;
4. Convocar pessoas;
5. Receber pessoas;
6. Organizar prontuários;
7. Preencher formulários e cadastro;
8. Consultar cadastros;
9. Criar cadastros;
10. Redigir ofícios, memorandos, despachos;
11. Redigir projetos para captação de recursos;
12. Criar instrumentos de controle administrativo;
13. Compor reuniões administrativas e técnicas;
14. Fazer levantamentos estatísticos;
15. Comprar material técnico;
16. Prestar contas.

Competências pessoais

1. Manter sigilo;
2. Cultivar a ética;
3. Demonstrar ciência sobre código de ética profissional;
4. Demonstrar ciência sobre legislação pertinente;
5. Trabalhar em equipe;
6. Manter imparcialidade e neutralidade;
7. Demonstrar bom senso;
8. Respeitar os limites de atuação;
9. Ser psico-analisado;
10. Ser psico-terapeutizado;
11. Demonstrar continência (Acolhedor);
12. Demonstrar interesse pela pessoa/ser humano;
13. Ouvir ativamente (saber ouvir);
14. Manter-se atualizado;
15. Contornar situações adversas;
16. Respeitar valores e crenças dos clientes;
17. Demonstrar capacidade de observação;
18. Demonstrar habilidade de questionar;
19. Amar a verdade.

Recursos de trabalho

* Caixa lúdica
* Testes
* Computador
* Questionários
* Inventários
* Material gráfico
* Escolas
* Softwares específicos
* Divã
* Material lúdico

(*) Ferramentas mais importantes

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A adolescência e as Drogas

A adolescência e as Drogas

“O próprio Freud estabeleceu uma teoria da adolescência sempre falou do infantil, da sexualidade infantil, do adolescente e do adulto. Fala da fantasia, em seu texto fundamental, a frase fantasmática onde tudo se em uma criança”.
Esse trabalho opera a separação de dois significantes: adolescente / drogas. 
A inconveniência desta associação não só apenas decorre do fato estar em um momento da vida definido segundo os critérios da biologia, o que faria um individuo fazer uso de drogas. 
O uso não é um privilégio na fase da adolescência, uma vez que muitas crianças fazem uso de entorpecentes, como muitos adultos fazem, como se o uso das drogas fossem um antidepressivos e ansiolíticos , práticando as ações, as quais poderíamos chamar de toxicomania receitada. 
Se não é um determinado período da vida que propicia o uso de drogas, o que é?
Para aqueles que têm o gosto de ler Freud certamente não é estranha a seguinte formulação: “
O uso de drogas não é determinado por uma substância química qualquer, mas por uma predisposição da qual é portador o paciente, tanto assim que não existem cocainômanos que não tenham sido heroinômanos.” 
O que quer dizer Freud com “predisposição”? 
A meu ver o uso de drogas é diretamente proporcional ao declínio, do que em psicanálise chamamos, da “função paterna”. Quando falamos em função paterna, conceituação que devemos a Jacques Lacan, estamos nos referindo a uma operação lógica e não a uma pessoa, sendo a mãe, a transmissora desta função. Quer dizer, que depende de como a mãe se relacione com a lei, de como ela tenha recebido a lei que lhe foi transmitida, para poder, ou transmiti-la, ou falsear com ela. Costumo dizer que o sujeito que faz uso de drogas, mostra de forma muito clara que o pai e a mãe traficam o pai enquanto função. Que no triângulo mãe, criança, pai, a lei é banalizada a ponto de todos tornarem-se comparsas.
A rota do tráfico do pai começa desde que, ao vir ao mundo, no lugar de ofertar o Dom de sua presença, a mãe lhe oferece objetos da realidade , empanturrando-o, para suturar uma divisão que lhe é intolerável. 
O pai recusando-se a interdição torna-se o reprodutor das ações da mãe, numa infinitização de gozo bem ao estilo da pulsão de morte. Trata-se, portanto do tráfico de uma função que tem como consequência a sua desoperacionalização. Podemos então dizer que o império da droga é o reflexo de uma mudança nas “condições do edipianismo”. 
Em seu artigo: Introdução Teórica as Funções da Psicanálise em Criminologia, pág. 135, Lacan faz a seguinte pontuação: “A autoridade reservada ao pai, único traço subsistente de sua estrutura original, mostra-se, de fato, cada vez mais instável ou obsoleta, e as incidências psicopatológicas dessa situação devem ser referidas tanto à escassez das relações grupais que ela assegura ao indivíduo quanto a ambivalência cada vez maior de sua estrutura.”
Jones, E – A vida e Obra de Sigmund Freud, O episódio da cocaína, cap. 6.
Lacan, J – Introdução Teórica as Funções da Psicanálise de Criminologia, p. 135.
Ao me deparar nesta formulação com as expressões: “escassez das relações grupais” e “a ambivalência cada vez maior de sua estrutura”. Não pude deixar de recorrer a um texto pouco citado de Freud, A Psicologia do Escolar e ali encontrar exatamente, no cerne do referido texto que, a questão do dito sujeito adolescente, é uma questão que se refere ao destino do pai enquanto representante da figura imaginária da autoridade, que ao cair como Outro absoluto, produz uma crise . Há, portanto, neste momento, uma crise do pai.
Então, o que se operou na civilização para que se tenha tornado obsoleta ou instável a autoridade do pai ? e, que pai temos hoje? 
Sabemos que em decorrência de fatores políticos, sociais e econômicos, alteraram-se as condições de troca, de mercado, as quais se refletem direta ou indiretamente nas relações grupais a que de modo geral chamamos “Cidade” e neste primeiro e restrito grupo a que denominamos “Família”.
“O em-comum da cidade teria que ser um espaço onde os cidadãos se cruzam, sem outro critério de unificação a não ser a exterioridade de suas relações”. Isto faz um cidadão que de início é um, qualquer um. Se o grupo familiar gera um cidadão, do par pai e mãe, tomados ambos como significantes , brota um sujeito, o qual, diferentemente do cidadão é “singularidade que se afirma por ocasião de um acontecimento a que ele passa a dever felicidade”.
Observamos, portanto que, o cidadão e o sujeito não coincidem, mas o que podemos tirar desta não coincidência? Proporcionar via dispositivo analítico, a passagem do universal ao particular, ou, sustentar um: a cada um seu real.
A medida que caem os muros da pólis, em que se foi globalizando o saber que era o que vinha definindo algumas particularidades culturais, alguns valores, ou se quisermos, hábitos e costumes dos grupos. À medida que o mestre moderno, não é como o pai que não tem a resposta para todas as questões, como o mestre que Freud descreve em sua Psicologia do Escolar. Perpetua-se uma potência imaginária que faz do outro um Grande Outro consistente, senhor de tudo e de todos. 
Trata-se de outro para quem o homem é uma pobre alma que deve ser protegida e dirigida por um sistema ao qual tudo deve. Dívida que nada tendo de simbólica deve ser paga com toda a carne, na doação de órgãos, no comércio das crianças, nas cidades onde o tirano vai lançar suas bombas precisamente sobre os que não aceitam suas injunções, mostrando que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
É preciso correr atrás dos bens de capital que o senhor estoca para revendê-los quando os escravos modernos já estiverem dispostos a pagar por eles com a carne que não comem e com os sonhos que deixaram de sonhar. É preciso entorpecer o desejo.
Que pais têm hoje? 
O pai da horda primitiva era aquele que possuía a todas as mulheres e por isso impeliu os filhos a destruí-lo fundando a exceção, o ao menos um que ao escapar da lei a reforça. A exceção faz a regra. O pai da horda tecnológica não pode ser morto porque não é encontravel é desaparecido, podendo gozar de todos os bens de consumo sem qualquer consequência. Como desaparecer não é o mesmo que morrer o pai da horda tecnológica é um pai feroz, um pai que não reconhece os limites da lei, um pai incontrastável que não deixa lugar à falta.
Foi porque o pai foi morto pelos filhos que eles não puderam mais gozar de todas as mulheres, fazendo da culpa um anteparo frente a angústia. O pai nosso de todos os dias não tem sepultura porque é imortal, surgindo sempre, não para interditar o gozo, mas para promover o impuxo ao gozo, razão pela qual o filho que disse ao pai: “Pai não vês que estou queimando!” diz agora, que o pai está desaparecido: “Pai não vês que estou gozando!”. Aquele que deveria interditar para com seu ato viabilizar o desejo, ao condescender com o gozo inviabiliza o desejo.
O pai já não é aquele! Na periferia das grandes cidades famílias de baixa renda suprem a ausência real do pai, que convocado pelo moderno senhor, não ganha o suficiente se quer para repousar todas as noites em sua casa. A mãe, deixada em solidão, faz muitas vezes dos filhos parceiros de suas angústias, convocando-os a um lugar que lhes esteve desde sempre interditado, não podendo nomear o pai, senão, como ausente. Deslocados, ambos de sua função, temos o que a certa época era apenas uma licença poética, um “sem pai nem mãe.”.
O pai que nomeia só é eficaz na medida em que ele participa da função. Contemporaneamente, portanto, constatamos que “o conceito de pai acabou liberado da carga de poder, evidenciada como caduca.”. 
Se o pai contemporâneo está desaparecido, se ele não pode ser encontrado para exercer o modelo da função que lhe cabe: interditar o gozo e viabilizar o desejo instaurando a falta, como comprometer-se numa escolha de objeto sempre faltoso? O desastre que atinge o pai “enfermidade maior da cultura industrializada”, impede de dar ao filho o estatuto de filho, o qual não podendo ser reconhecido não reconhece o pai e, ao não poder levar o nome do pai, desaparece como o pai levando o nome do produto industrial: toxicômano, alcoolista, depressivo, ansioso. 

Bibliografia:

Bentes, L - La Ruta Del Tráfico del Padre, Pharmakon n 3, Publicavión de Grupos e Intituciones de Toxicomanias y Alcoolismo del Campo Freudiano, B. Aires, 1995
Freud, S – Algumas Reflexões sobre a Psicologia d Escolar (1914), vol. XIII Obras Completas, Imago Ed, RJ, 1980.
Jones, E – Vida e Obra de Sigmund Freud, Zahar Ed, RJ, Lacan, J – Introdução Teórica as Funções da Psicanálise em Criminologia, Escritos, Zahar Ed, RJ, 1998

ANOREXIA E A ESTRUTURA NEURÓTICA

ANOREXIA E A ESTRUTURA NEURÓTICA

FRANCISCO CARLOS SILVA RAMOS
PSICANALISTA

UMA EXPLORAÇÃO ÁS ESTRUTURAS

Esse artigo tem o objetivo de explorar a relação do sintoma da anorexia, que se apresenta na estrutura neurótica, com o desejo. Para tanto, retomamos o conceito de desejo em Freud e a articulação que Lacan estabelece entre a necessidade, a demanda e o desejo. A anorexia como expressão de um comer nada está em foco. Nada como falta, como expressão desejante de um sujeito que pede que o Outro olhe em outra direção que não ele, ou seja, que ele dirija seu olhar para além dele.
Com as descobertas da psicanálise, surge uma nova concepção de homem a partir dos ensinamentos de Freud. Habitado por um novo saber do qual ele tem notícias a partir dos sonhos, atos falhos, chistes e sintoma, o homem não possui mais a primazia da consciência, surgindo uma nova instância psíquica que determina de forma peculiar seus atos e pensamentos: o inconsciente.
Dando voz às histéricas, Freud vai tomando contato com as leis que regem o inconsciente, com as características deste, e com a presença de um sofrimento naquele que fala. O sintoma passa a ter um estatuto diferente do vigente no saber médico, onde aparece como um sinal de que algo no corpo não está funcionando conforme o esperado organicamente, requerendo, assim, medicação e eliminação imediata. O sintoma freudiano tem valor de enigma, sendo uma formação do inconsciente que expressa uma relação de compromisso entre as exigências pulsionais e o julgamento crítico. É, sobretudo, uma satisfação pulsional, uma mensagem onde atuam o deslocamento e a condensação das representações inconscientes.
O sintoma sobre o qual nos debruçamos nesse artigo é a anorexia, que se apresenta na neurose, e, como nos mostra a epígrafe citada acima, é definida por Lacan como o ato de comer nada, e não como o ato de não comer, como muitos poderiam pensar.
A anorexia foi primeiramente definida por Naudeau, em 1789, como “uma doença nervosa acompanhada de uma repulsa extraordinária pelos alimentos” (apud Bidaud 1998, p.11). Já entre 1868 e 1873, o termo anorexia nervosa aparece nas obras do inglês William Gull “definida como privação – em caráter privado – do apetite” (id). É interessante observarmos que o método utilizado como tratamento nesses casos era o isolamento terapêutico. A paciente era retirada de casa e internada em um quarto onde permanecia sozinha, só tendo contato com o médico. Por que era justamente a separação da paciente de seu meio o tratamento mais indicado? Eis uma questão que nos intrigou desde o início dessa pesquisa: aquela da relação entre a anorexia e a separação.
A anorexia mata 15% dos jovens acometidos por essa sintomatologia, sendo a doença compulsiva que mais mata no mundo (Fux, 2002). A compulsão aí presente é emagrecer a qualquer custo, e, muitas vezes, ela parece não se constituir como uma mensagem endereçada ao Outro, possuindo a mudez própria da pulsão de morte. Apostamos, porém, que desse sofrimento pode surgir uma demanda endereçada ao analista, movimento que se faz necessário para a realização do tratamento analítico. E a questão que colocamos é, então: como dar voz a ela. 
O interesse por esse tema surgiu a partir do atendimento clínico de uma paciente anoréxica (18 a) que chega ao consultório trazida pela mãe e encaminhada pelo médico o qual dizia “não saber mais o que fazer com o caso”, visto que a paciente se encontrava em um estado “deplorável” e, mesmo assim, se recusava a comer. Ele nada podia fazer diante dessa recusa. Foram poucas sessões, mas houve tempo suficiente para que essa fala nos instigasse a respeito de várias questões que foram se apresentando.
A anorexia surgiu concomitantemente ao início da vida sexual da paciente e ao despertar dos conflitos com a mãe que não aprovava seu namoro. A relação com o corpo, o incômodo que a paciente sentia diante do olhar da mãe e o modo como a comida se fazia presente em suas relações são destaques de suas associações, as quais, a partir da análise, se faziam ouvir, gerando alguns questionamentos.
A paciente reconheceu que no dispositivo analítico algo novo, diferente da escuta médica, com a qual encontrava-se acostumada, estava sendo possibilitado pela fala. O que seria? Talvez a possibilidade da paciente se intrigar com seu mal comum. Do que ele diz? Para quem?
A relação entre o sujeito e o nada na anorexia se faz presente nesse artigo a partir do discurso dessa paciente. Frases como “não tenho vontade de nada”, “preciso comer nada”, “nada me agrada”, dentre outras, chamaram nossa atenção, gerando um interesse em saber que nada é esse que aparecia de forma tão freqüente nesse discurso.
O que nos intrigou foram as diferentes possibilidades de o sujeito se relacionar com o nada, de se colocar diante do nada, de positivá-lo, ou seja, fazer dele um objeto. O nada ganha forma de objeto e, investido como tal, passa a ter um lugar prioritário na economia libidinal do sujeito.
Sabemos que através do discurso social, a palavra anorexia fornece ao sujeito a possibilidade de que ele se identifique com o significante “sou anoréxica”, mascarando a relação particular que ele possui com seu sintoma. É buscando essa singularidade que iremos aprofundar a relação da anoréxica com o nada, com o desejo. Apesar de não nos debruçarmos sobre a relação entre a anorexia e o gozo, visto a necessidade de realizarmos um trabalho sucinto, sinalizamos para sua existência.
Em busca de um primeiro contato com o tema da anorexia, realizamos uma pesquisa bibliográfica onde foi encontrada uma grande diversidade de artigos e livros publicados. Tal diversidade está relacionada, sobretudo, com o modo como a anorexia é abordada, o lugar teórico a partir do qual ela é vista.
Dentre os mais freqüentes, destacamos o viés social, onde a anorexia é tida como o resultado de uma cultura que só valoriza o corpo magro, dando a este o título de um ideal feminino. Sendo assim, a pressão da mídia, a busca de aceitação na relação social e a identificação a um modelo feminino são temas trabalhados nessa vertente.
Não negamos os efeitos que o ideal de um corpo magro possa ter sobre o sujeito de uma forma geral, mas pensamos ser mais interessante nos perguntarmos por que alguns sujeitos desenvolvem a anorexia e outros não, se todos estão, de alguma forma, sob o efeito dessas mensagens. Ou seja, preferimos nos indagar sobre o que há de peculiar na relação do sujeito com seu sintoma anoréxico. Nesse sentido, não nos detemos nesse viés social.
A relação entre a anorexia e o nada foi também pinçada das afirmações lacanianas. Dentre estas, citamos, mais uma vez, aquela que figura no Seminário 4 (1956/57) onde afirma que “a anorexia mental não é um não comer, mas um comer nada”(Lacan, 1956/57, p.188, grifo do autor).
 
Seguindo essa articulação inicial, onde mostramos os diferentes lugares de onde a anorexia pode ser estudada, não nos restringimos aos artigos médicos que trazem a anorexia como um distúrbio alimentar, um sintoma orgânico no qual o sujeito não estaria implicado, e cujo tratamento na maioria dos casos é a obrigatoriedade de comer juntamente com uma ação medicamentosa (a mesma utilizada em casos de depressão), exigência que, se não efetuada pelo paciente, pode indicar a possibilidade de internação. Aqui, é o corpo físico que está em jogo e não o corpo sexuado da psicanálise. O sintoma deve ser eliminado rapidamente, não possuindo valor de mensagem, ou seja, o paciente não é convocado a falar do que sofre, mas, pelo contrário, sua boca deve se manter cheia, sendo esta a prescrição médica.
Para entendermos o estatuto da anorexia a partir de um viés psicanalítico temos que tocar em um ponto fundamental: o desejo.
Buscando a origem desse conceito em Freud, a partir da experiência de satisfação, Lacan toma um sonho relatado em “A Interpretação dos sonhos” (1900, p.180) como modelo para analisar a estrutura do desejo. 
Uma analisando de Freud, que possuía conhecimento de seus desenvolvimentos teóricos, diz a seu analista que não entende como ele pode afirmar que o sonho é a realização de um desejo, se, em seu sonho, justamente o que não se realiza é o seu desejo. Relata, então, a paciente: queria oferecer uma ceia, mas não tinha nada em casa além de um pequeno salmão defumado.
Pensei em sair e comprar alguma coisa, mas então lembrei-me que era domingo à tarde e que todas as lojas estariam fechadas. Em seguida, tentei telefonar para alguns fornecedores, mas o telefone estava com defeito. Assim, tive que abandonar meu desejo de oferecer uma ceia (Freud, 1900, p. 181).
O desejo que Freud observa nesse sonho é o de ter um desejo insatisfeito. A partir das associações da paciente, outros elementos aparecem como o pedido que ela faz ao marido para não lhe trazer caviar, apesar de sua enorme vontade de comê-lo.
Ou seja, ela pede que ele não a satisfaça. “O desejo da histérica de ter um desejo insatisfeito é significado por seu desejo de caviar: o desejo de caviar é seu significante” (Lacan, 1958/1998, p. 627). Além disso, não havia salmão defumado, prato predileto de uma amiga por quem o marido se interessava, apesar de sua magreza, e que havia expressado o desejo de ir jantar na casa da paciente.
Sem o prato principal, não havia como realizar o jantar e satisfazer o desejo da amiga: manteria a amiga magra para afastá-la de seu marido. O desejo da paciente seria o caviar? Mas o caviar ela também não quer. “Seu desejo de caviar é um desejo de mulher satisfeita, e que justamente não quer estar” (Lacan, 1958/1998, p. 631). Com efeito, Freud afirma que essa mulher é muito satisfeita pelo marido em suas necessidades (Freud, 1900). É recusando um alimento que a bela açougueira introduz uma falta em sua posição de mulher satisfeita. A presentificação dessa falta, dessa recusa, é condição para que ela continue desejando.
O amor é justamente essa falta dada ao Outro para que ele a preencha. E é isso que está por trás de toda a demanda, mascarado no pedido da satisfação de uma necessidade. Pode ocorrer que o Outro, no lugar disso que ele não tem, que lhe falta, coloque justamente a comida, ou seja, “empanturra-a (a criança) com a papinha sufocante daquilo que ele tem, ou seja, confunde seus cuidados com o dom de seu amor. É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa a sua recusa como desejo (anorexia mental)” (Lacan, 1958, p. 634). Assim, dizendo não à demanda da mãe, a criança pede que ela olhe em outra direção que não ela própria.
 
Sem fazermos a redução do sintoma anoréxico à estrutura histérica, observamos pontos em comum entre ambas. Se a paciente de Freud pede ao marido que não traga caviar para se manter insatisfeita, mostrando que o seu desejo é de manter o desejo insatisfeito, também na anorexia o sujeito não come, ou melhor, come o nada, mantendo seu desejo insatisfeito. O desejo presente na anorexia é um desejo de nada, como nos diz Lacan. Recusando o objeto da necessidade, a anoréxica demanda o amor, ou seja, exige que o objeto não traga consigo apenas a marca da necessidade, mas que seja signo de amor.
Lacan nos diz que a relação do sujeito com o objeto deve ser lida freudianamente (Lacan, 1959/60, p.114). Ela emerge em uma relação narcísica, imaginária, uma vez que o objeto aparece de maneira intercambiável com o amor que o sujeito tem por sua própria imagem. É nessa relação imaginária entre o eu e o objeto que o eu se faz de objeto para o Outro. Mas esse objeto se distingue daquele visado no movimento da pulsão o qual possui a característica de ser um objeto parcial. Entre o objeto estruturado por uma relação narcísica e das Ding, que possui uma relação com o objeto da pulsão, há uma diferença, um hiato, que permitirá surgir o objeto do desejo. 
É no “Projeto para uma psicologia científica” (1950 [1985]) que Freud faz um primeiro esboço do que ele denomina desejo, ponto que será essencial retornar para iniciarmos o estudo lacaniano da articulação entre a necessidade, a demanda e o desejo. Ao formular uma primeira hipótese de funcionamento do aparelho psíquico, Freud postula a existência de estímulos endógenos. Estes são definidos como uma excitação interna que necessita de uma ação específica que atue sobre ela, já que nenhuma descarga – gritos e movimentos - pode produzir resultado aliviante.
De acordo com o princípio de constância, qualquer aumento na excitação é sentido como desprazer, e este desconforto – a fome no exemplo freudiano – requer para ser aplacado, a interferência de um agente externo. É necessário, então, uma alteração no mundo externo que, como ação específica, só pode ser promovida de determinadas maneiras.
Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via da alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais (Freud, 1950 [1895], p.370).
Freud atribuiu a essa experiência o complexo do ser humano próximo – Nebenmensch -, formado pela impressão deixada por essa ajuda alheia recebida. Esse complexo se divide em dois componentes: um deles produz uma impressão por sua “estrutura constante e permanece unido como uma coisa (Ding), enquanto o outro pode ser compreendido pela atividade de memória” (Freud, ibid, p.384), ou seja, pode ser representado.
A partir do complexo do próximo – Nebenmensch -, Freud articulou em um só tempo o que é o ‘à parte’ e a similitude, como signo de separação e identidade. Das Ding é justamente a parte do complexo que é isolada pelo sujeito como estranho – Fremde -, desconhecido. Das Ding como estranho constitui esse primeiro exterior, em torno do qual se orienta todo o encaminhamento do sujeito, sua referência em relação ao mundo do desejo (Lacan, 1959/60, p.69).
 
Vemos que, se em um segundo momento, ao sentir novamente o desconforto, o sujeito alucina o objeto que diminuiu essa excitação. É apenas a ausência dessa satisfação esperada que leva o sujeito ao abandono da tentativa de alcançá-la por meio da alucinação, tentativa guiada pelo princípio de prazer.
O aparelho psíquico é, então, levado a considerar as circunstâncias do mundo externo, e empenha-se para efetuar nele uma alteração real, surgindo assim um novo princípio de funcionamento mental: o princípio de realidade. 
Ao falar do assujeitamento do sujeito ao desejo do Outro, Lacan trabalha a estreita relação entre demanda e desejo. A demanda figura como possibilidade de indicar o aparecimento do desejo a partir de um mais além. Isso porque “o desejo está obrigado à intermediação da fala” (Lacan, 1957-58, p.369); é nos espaços entre os significantes que ele faz sua morada. Se, em um primeiro momento, a criança depende da fala do Outro, do sentido que ele dá ao seu grito, como demonstra a experiência de satisfação, alienando a estrutura de seu desejo à estrutura da demanda, em um segundo tempo, reconhece um desejo para além dessa demanda recebida do Outro.
No nível da demanda, há, entre o sujeito e o Outro, uma situação de reciprocidade, ou seja, tanto o desejo do sujeito depende inteiramente de sua demanda ao Outro, como o que a Outra demanda também depende de um posicionamento do sujeito. O sujeito percebe a importância de atender ou não a essa demanda feita pelo Outro, o que é ilustrado com a angústia que a filha suscita na mãe quando não come. Assim, ao conceber o campo do Outro como marcado pelo significante, Lacan coloca a possibilidade de o sujeito se reconhecer também como aquele que se encontra submetido às leis da linguagem.
“Há sempre algo que resta para além do que pode satisfazer-se por intermédio do significante, isto é, pela demanda” (Lacan, 1957-58, p.379). Destacamos, portanto, que a linguagem evidencia a “função desse desejo do Outro, no que ele permite que a verdadeira distinção entre o sujeito e o Outro se estabeleça de uma vez por todas” (Lacan, 1957-58, p.371).
O homem fala e, por isso, suas necessidades, o que ele carece, aparece sempre através da linguagem, nas demandas que o sujeito dirige ao Outro (Lacan, id.). A partir dos mecanismos próprios da linguagem, sabemos que a fala retorna sempre para o sujeito de forma invertida, alienada na fala do Outro.
 
A necessidade só aparece alienada na demanda, a qual, por sua vez, se articula na cadeia de significantes. Sendo assim, podemos concluir que “qualquer coisa que se dê para a necessidade será sempre interpretada em termos de demanda de amor” (Clastres, 1990, p.51). Já que toda demanda é, antes de tudo, demanda de amor, o objeto da necessidade é sempre obtido como objeto signo de amor; o alimento é tomado na relação do sujeito com o Outro como moeda amorosa. A partir da função da necessidade, o que a criança realmente busca é o amor, o dom do que não se tem.
É a mãe, como Outro primordial, que fornece uma interpretação ao grito do sujeito e demanda que ele aceite esse sentido dado por ela. A mãe traz em si esse Outro, que pode ou não atender a demanda do sujeito, se situando além da possibilidade de suprir as necessidades daquele. A demanda do sujeito é regulada pelo jogo de presença – ausência da mãe, ou seja, é preciso que o objeto falte em algum momento para que o sujeito possa demandar. 
A demanda em si refere-se a algo distinto das satisfações por que clama. Ela é demanda de uma presença ou de uma ausência, o que a relação primordial com a mãe manifesta, por ser prenhe desse Outro a ser situado aquém das necessidades que possa suprir (Lacan, 1958b, p.697, grifo do autor).
Enquanto a necessidade está do lado do instinto, do conhecimento e da satisfação, a demanda se encontra ligada à pulsão, ao saber e a seu estado de insatisfação, ou seja, ao que humaniza o homem. Lacan enriquece essa diferenciação ao definir o instinto como um modo de conhecimento necessário para que o ser vivo satisfaça suas necessidades naturais (Lacan, 1960, p.818). Em psicanálise, porém, não se trata do instinto, e sim da pulsão, que comporta um saber que não se confunde com o conhecimento. 
Se a necessidade se aliena na demanda, e se esta é dirigida a um Outro, retornando para o sujeito, a necessidade também viria do Outro, já que a noção de demanda implica que o sujeito recebe sua própria mensagem de forma invertida. “A necessidade não é mais do sujeito, é do Outro, o que obviamente a desnaturaliza de forma absoluta” (Eidelsztein, 1995, p.53).
Apesar de haver a alienação da necessidade na demanda, a demanda não anula tudo da necessidade, não a substitui completamente. É a partir da impossibilidade de sobrepor a demanda e a necessidade que surge um resto dessa articulação, a saber, o desejo. A demanda transforma tudo em prova de amor, anulando assim, “a particularidade de tudo aquilo que pode ser concebido” (Lacan, id). Essa particularidade retornará no ‘para além da demanda’. Nesse ponto, introduzimos a importante afirmação de Lacan segundo a qual o desejo está articulado à demanda, mas não é articulável em si (Lacan, 1960), dito de outro modo, só temos notícias do desejo através da demanda, que é, esta sim, articulável na cadeia de significantes. Uma questão se apresenta então: onde situar o desejo, se o sujeito é, aqui, definido a partir da articulação significante?
Lacan indica o caminho mostrando que o desejo “se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade” (Lacan, 1960, p.828).
O vão originário dessa articulação se deve à diferença estrutural entre a demanda e a necessidade. Enquanto a demanda se apresenta como apelo incondicional ao Outro, a necessidade introduz a impossibilidade de existir uma satisfação universal (Lacan, ibid.). Com a entrada na linguagem, o sujeito perde algo da necessidade: seu objeto particular e exclusivo, que não passa pela demanda e aparecerá como característica do desejo, pois o desejo é o que singulariza o sujeito (Eidelsztein, 1995).
Seguindo nosso raciocínio, não é a frustração de uma necessidade que mantém o desejo, ou teríamos que admitir a existência de desejo nos animais, os quais também estão sujeitos à frustração da necessidade.
O desejo é indestrutível e nenhuma satisfação obtida através de um objeto real pode preencher a falta do sujeito. É assim que Lacan afirma que “mesmo o desejo da criança nunca está ligado à pura e simples satisfação natural” (1956-57, p.186). Quando Anna Freud, ainda pequena, após passar um dia inteiro com fome, sonha com todas aquelas guloseimas - chegando a exclamar, enquanto dormia: “Anna Freud, molangos, molangos silvestres, omelete, pudim” (Freud, 1900 p. 164) -, esses objetos já aparecem como transcendentes, “já estão na ordem simbólica e eles aparecem no sonho como interditos” (Lacan, 1956-57, p.186). O que esse sonho nos mostra é o desejo em seu estatuto de insaciável, de insatisfeito.
É através do sintoma, aqui representado na relação peculiar do sujeito com o alimento ofertado pelo Outro, que o sujeito tenta dar um sentido ao desejo do Outro, fazendo uma equivalência entre o alimento e esse desejo. Assim, o sujeito também põe à prova o lugar que ocupa para o Outro, transformando o alimento em moeda de troca na busca por uma resposta sobre o desejo do Outro.
Apesar de afirmarmos que, nesse sentido, o sintoma da anorexia poderia ser entendido como uma posição desejante do sujeito, já que ele introduz um não, um espaço entre ele e o Outro, não podemos nos esquecer que essa saída não é um enfrentamento real da falta do Outro S (A/), e sim uma ilusão de que caberia realmente ao sujeito introduzir, de modo onipotente, a falta no Outro. Mesmo sendo uma postura desejante, o gozo está fortemente presente nessa sintomatologia.
Um gozo que, a princípio, relacionamos com os representantes do objeto a, seio e nada, e que é capaz de levar o sujeito à morte. Apostamos que será através de um trabalho analítico que a falta no Outro será reconhecida e trabalhada, gerando uma mudança no posicionamento do sujeito frente esse Outro. O que a anorexia ilustra e nos ensina é a radicalidade da insatisfação do desejo e, mais, que a satisfação de nenhuma ‘necessidade’ é capaz de calar o desejo.

Bibliografia:

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