ANOREXIA E A ESTRUTURA NEURÓTICA
FRANCISCO CARLOS SILVA RAMOS
PSICANALISTA
PSICANALISTA
UMA EXPLORAÇÃO ÁS ESTRUTURAS
Esse artigo tem o objetivo de explorar a relação do sintoma da anorexia, que se apresenta na estrutura neurótica, com o desejo. Para tanto, retomamos o conceito de desejo em Freud e a articulação que Lacan estabelece entre a necessidade, a demanda e o desejo. A anorexia como expressão de um comer nada está em foco. Nada como falta, como expressão desejante de um sujeito que pede que o Outro olhe em outra direção que não ele, ou seja, que ele dirija seu olhar para além dele.
Com as descobertas da psicanálise, surge uma nova concepção
de homem a partir dos ensinamentos de Freud. Habitado por um novo saber do qual
ele tem notícias a partir dos sonhos, atos falhos, chistes e sintoma, o homem
não possui mais a primazia da consciência, surgindo uma nova instância psíquica
que determina de forma peculiar seus atos e pensamentos: o inconsciente.
Dando voz às histéricas, Freud vai tomando contato com as
leis que regem o inconsciente, com as características deste, e com a presença
de um sofrimento naquele que fala. O sintoma passa a ter um estatuto diferente
do vigente no saber médico, onde aparece como um sinal de que algo no corpo não
está funcionando conforme o esperado organicamente, requerendo, assim,
medicação e eliminação imediata. O sintoma freudiano tem valor de enigma, sendo
uma formação do inconsciente que expressa uma relação de compromisso entre as
exigências pulsionais e o julgamento crítico. É, sobretudo, uma satisfação
pulsional, uma mensagem onde atuam o deslocamento e a condensação das
representações inconscientes.
O sintoma sobre o qual nos debruçamos nesse artigo é a anorexia, que se apresenta na neurose, e, como nos mostra a epígrafe citada acima, é definida por Lacan como o ato de comer nada, e não como o ato de não comer, como muitos poderiam pensar.
A anorexia foi primeiramente definida por Naudeau, em 1789, como “uma doença nervosa acompanhada de uma repulsa extraordinária pelos alimentos” (apud Bidaud 1998, p.11). Já entre 1868 e 1873, o termo anorexia nervosa aparece nas obras do inglês William Gull “definida como privação – em caráter privado – do apetite” (id). É interessante observarmos que o método utilizado como tratamento nesses casos era o isolamento terapêutico. A paciente era retirada de casa e internada em um quarto onde permanecia sozinha, só tendo contato com o médico. Por que era justamente a separação da paciente de seu meio o tratamento mais indicado? Eis uma questão que nos intrigou desde o início dessa pesquisa: aquela da relação entre a anorexia e a separação.
O sintoma sobre o qual nos debruçamos nesse artigo é a anorexia, que se apresenta na neurose, e, como nos mostra a epígrafe citada acima, é definida por Lacan como o ato de comer nada, e não como o ato de não comer, como muitos poderiam pensar.
A anorexia foi primeiramente definida por Naudeau, em 1789, como “uma doença nervosa acompanhada de uma repulsa extraordinária pelos alimentos” (apud Bidaud 1998, p.11). Já entre 1868 e 1873, o termo anorexia nervosa aparece nas obras do inglês William Gull “definida como privação – em caráter privado – do apetite” (id). É interessante observarmos que o método utilizado como tratamento nesses casos era o isolamento terapêutico. A paciente era retirada de casa e internada em um quarto onde permanecia sozinha, só tendo contato com o médico. Por que era justamente a separação da paciente de seu meio o tratamento mais indicado? Eis uma questão que nos intrigou desde o início dessa pesquisa: aquela da relação entre a anorexia e a separação.
A anorexia mata 15% dos jovens acometidos por essa
sintomatologia, sendo a doença compulsiva que mais mata no mundo (Fux, 2002). A
compulsão aí presente é emagrecer a qualquer custo, e, muitas vezes, ela parece
não se constituir como uma mensagem endereçada ao Outro, possuindo a mudez
própria da pulsão de morte. Apostamos, porém, que desse sofrimento pode surgir
uma demanda endereçada ao analista, movimento que se faz necessário para a
realização do tratamento analítico. E a questão que colocamos é, então: como
dar voz a ela.
O interesse por esse tema surgiu a partir do atendimento
clínico de uma paciente anoréxica (18 a) que chega ao consultório trazida pela
mãe e encaminhada pelo médico o qual dizia “não saber mais o que fazer com o
caso”, visto que a paciente se encontrava em um estado “deplorável” e, mesmo
assim, se recusava a comer. Ele nada podia fazer diante dessa recusa. Foram
poucas sessões, mas houve tempo suficiente para que essa fala nos instigasse a
respeito de várias questões que foram se apresentando.
A anorexia surgiu concomitantemente ao início da vida sexual
da paciente e ao despertar dos conflitos com a mãe que não aprovava seu namoro.
A relação com o corpo, o incômodo que a paciente sentia diante do olhar da mãe
e o modo como a comida se fazia presente em suas relações são destaques de suas
associações, as quais, a partir da análise, se faziam ouvir, gerando alguns
questionamentos.
A paciente reconheceu que no dispositivo analítico algo novo,
diferente da escuta médica, com a qual encontrava-se acostumada, estava sendo
possibilitado pela fala. O que seria? Talvez a possibilidade da paciente se
intrigar com seu mal comum. Do que ele diz? Para quem?
A relação entre o sujeito e o nada na anorexia se faz
presente nesse artigo a partir do discurso dessa paciente. Frases como “não
tenho vontade de nada”, “preciso comer nada”, “nada me agrada”, dentre outras,
chamaram nossa atenção, gerando um interesse em saber que nada é esse que
aparecia de forma tão freqüente nesse discurso.
O que nos intrigou foram as diferentes possibilidades de o
sujeito se relacionar com o nada, de se colocar diante do nada, de positivá-lo,
ou seja, fazer dele um objeto. O nada ganha forma de objeto e, investido como
tal, passa a ter um lugar prioritário na economia libidinal do sujeito.
Sabemos que através do discurso social, a palavra anorexia
fornece ao sujeito a possibilidade de que ele se identifique com o significante
“sou anoréxica”, mascarando a relação particular que ele possui com seu
sintoma. É buscando essa singularidade que iremos aprofundar a relação da
anoréxica com o nada, com o desejo. Apesar de não nos debruçarmos sobre a
relação entre a anorexia e o gozo, visto a necessidade de realizarmos um
trabalho sucinto, sinalizamos para sua existência.
Em busca de um primeiro contato com o tema da anorexia,
realizamos uma pesquisa bibliográfica onde foi encontrada uma grande
diversidade de artigos e livros publicados. Tal diversidade está relacionada,
sobretudo, com o modo como a anorexia é abordada, o lugar teórico a partir do
qual ela é vista.
Dentre os mais freqüentes, destacamos o viés social, onde a
anorexia é tida como o resultado de uma cultura que só valoriza o corpo magro,
dando a este o título de um ideal feminino. Sendo assim, a pressão da mídia, a
busca de aceitação na relação social e a identificação a um modelo feminino são
temas trabalhados nessa vertente.
Não negamos os efeitos que o ideal de um corpo magro possa
ter sobre o sujeito de uma forma geral, mas pensamos ser mais interessante nos
perguntarmos por que alguns sujeitos desenvolvem a anorexia e outros não, se
todos estão, de alguma forma, sob o efeito dessas mensagens. Ou seja,
preferimos nos indagar sobre o que há de peculiar na relação do sujeito com seu
sintoma anoréxico. Nesse sentido, não nos detemos nesse viés social.
A relação entre a anorexia e o nada foi também pinçada das afirmações lacanianas. Dentre estas, citamos, mais uma vez, aquela que figura no Seminário 4 (1956/57) onde afirma que “a anorexia mental não é um não comer, mas um comer nada”(Lacan, 1956/57, p.188, grifo do autor).
A relação entre a anorexia e o nada foi também pinçada das afirmações lacanianas. Dentre estas, citamos, mais uma vez, aquela que figura no Seminário 4 (1956/57) onde afirma que “a anorexia mental não é um não comer, mas um comer nada”(Lacan, 1956/57, p.188, grifo do autor).
Seguindo essa articulação inicial, onde mostramos os
diferentes lugares de onde a anorexia pode ser estudada, não nos restringimos
aos artigos médicos que trazem a anorexia como um distúrbio alimentar, um
sintoma orgânico no qual o sujeito não estaria implicado, e cujo tratamento na
maioria dos casos é a obrigatoriedade de comer juntamente com uma ação
medicamentosa (a mesma utilizada em casos de depressão), exigência que, se não
efetuada pelo paciente, pode indicar a possibilidade de internação. Aqui, é o
corpo físico que está em jogo e não o corpo sexuado da psicanálise. O sintoma
deve ser eliminado rapidamente, não possuindo valor de mensagem, ou seja, o
paciente não é convocado a falar do que sofre, mas, pelo contrário, sua boca
deve se manter cheia, sendo esta a prescrição médica.
Para entendermos o estatuto da anorexia a partir de um viés psicanalítico temos que tocar em um ponto fundamental: o desejo.
Para entendermos o estatuto da anorexia a partir de um viés psicanalítico temos que tocar em um ponto fundamental: o desejo.
Buscando a origem desse conceito em Freud, a partir da
experiência de satisfação, Lacan toma um sonho relatado em “A Interpretação dos
sonhos” (1900, p.180) como modelo para analisar a estrutura do desejo.
Uma analisando de Freud, que possuía conhecimento de seus
desenvolvimentos teóricos, diz a seu analista que não entende como ele pode
afirmar que o sonho é a realização de um desejo, se, em seu sonho, justamente o
que não se realiza é o seu desejo. Relata, então, a paciente: queria oferecer
uma ceia, mas não tinha nada em casa além de um pequeno salmão defumado.
Pensei em sair e comprar alguma coisa, mas então lembrei-me
que era domingo à tarde e que todas as lojas estariam fechadas. Em seguida,
tentei telefonar para alguns fornecedores, mas o telefone estava com defeito.
Assim, tive que abandonar meu desejo de oferecer uma ceia (Freud, 1900, p.
181).
O desejo que Freud observa nesse sonho é o de ter um desejo
insatisfeito. A partir das associações da paciente, outros elementos aparecem
como o pedido que ela faz ao marido para não lhe trazer caviar, apesar de sua
enorme vontade de comê-lo.
Ou seja, ela pede que ele não a satisfaça. “O desejo da
histérica de ter um desejo insatisfeito é significado por seu desejo de caviar:
o desejo de caviar é seu significante” (Lacan, 1958/1998, p. 627). Além disso,
não havia salmão defumado, prato predileto de uma amiga por quem o marido se
interessava, apesar de sua magreza, e que havia expressado o desejo de ir
jantar na casa da paciente.
Sem o prato principal, não havia como realizar o jantar e
satisfazer o desejo da amiga: manteria a amiga magra para afastá-la de seu
marido. O desejo da paciente seria o caviar? Mas o caviar ela também não quer.
“Seu desejo de caviar é um desejo de mulher satisfeita, e que justamente não
quer estar” (Lacan, 1958/1998, p. 631). Com efeito, Freud afirma que essa
mulher é muito satisfeita pelo marido em suas necessidades (Freud, 1900). É
recusando um alimento que a bela açougueira introduz uma falta em sua posição
de mulher satisfeita. A presentificação dessa falta, dessa recusa, é condição
para que ela continue desejando.
O amor é justamente essa falta dada ao Outro para que ele a preencha. E é isso que está por trás de toda a demanda, mascarado no pedido da satisfação de uma necessidade. Pode ocorrer que o Outro, no lugar disso que ele não tem, que lhe falta, coloque justamente a comida, ou seja, “empanturra-a (a criança) com a papinha sufocante daquilo que ele tem, ou seja, confunde seus cuidados com o dom de seu amor. É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa a sua recusa como desejo (anorexia mental)” (Lacan, 1958, p. 634). Assim, dizendo não à demanda da mãe, a criança pede que ela olhe em outra direção que não ela própria.
O amor é justamente essa falta dada ao Outro para que ele a preencha. E é isso que está por trás de toda a demanda, mascarado no pedido da satisfação de uma necessidade. Pode ocorrer que o Outro, no lugar disso que ele não tem, que lhe falta, coloque justamente a comida, ou seja, “empanturra-a (a criança) com a papinha sufocante daquilo que ele tem, ou seja, confunde seus cuidados com o dom de seu amor. É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa a sua recusa como desejo (anorexia mental)” (Lacan, 1958, p. 634). Assim, dizendo não à demanda da mãe, a criança pede que ela olhe em outra direção que não ela própria.
Sem fazermos a redução do sintoma anoréxico à estrutura
histérica, observamos pontos em comum entre ambas. Se a paciente de Freud pede
ao marido que não traga caviar para se manter insatisfeita, mostrando que o seu
desejo é de manter o desejo insatisfeito, também na anorexia o sujeito não
come, ou melhor, come o nada, mantendo seu desejo insatisfeito. O desejo
presente na anorexia é um desejo de nada, como nos diz Lacan. Recusando o
objeto da necessidade, a anoréxica demanda o amor, ou seja, exige que o objeto
não traga consigo apenas a marca da necessidade, mas que seja signo de amor.
Lacan nos diz que a relação do sujeito com o objeto deve ser
lida freudianamente (Lacan, 1959/60, p.114). Ela emerge em uma relação
narcísica, imaginária, uma vez que o objeto aparece de maneira intercambiável
com o amor que o sujeito tem por sua própria imagem. É nessa relação imaginária
entre o eu e o objeto que o eu se faz de objeto para o Outro. Mas esse objeto
se distingue daquele visado no movimento da pulsão o qual possui a característica
de ser um objeto parcial. Entre o objeto estruturado por uma relação narcísica
e das Ding, que possui uma relação com o objeto da pulsão, há uma diferença, um
hiato, que permitirá surgir o objeto do desejo.
É no “Projeto para uma psicologia científica” (1950 [1985])
que Freud faz um primeiro esboço do que ele denomina desejo, ponto que será
essencial retornar para iniciarmos o estudo lacaniano da articulação entre a
necessidade, a demanda e o desejo. Ao formular uma primeira hipótese de
funcionamento do aparelho psíquico, Freud postula a existência de estímulos
endógenos. Estes são definidos como uma excitação interna que necessita de uma
ação específica que atue sobre ela, já que nenhuma descarga – gritos e
movimentos - pode produzir resultado aliviante.
De acordo com o princípio de constância, qualquer aumento na
excitação é sentido como desprazer, e este desconforto – a fome no exemplo
freudiano – requer para ser aplacado, a interferência de um agente externo. É
necessário, então, uma alteração no mundo externo que, como ação específica, só
pode ser promovida de determinadas maneiras.
Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via da alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais (Freud, 1950 [1895], p.370).
Freud atribuiu a essa experiência o complexo do ser humano próximo – Nebenmensch -, formado pela impressão deixada por essa ajuda alheia recebida. Esse complexo se divide em dois componentes: um deles produz uma impressão por sua “estrutura constante e permanece unido como uma coisa (Ding), enquanto o outro pode ser compreendido pela atividade de memória” (Freud, ibid, p.384), ou seja, pode ser representado.
A partir do complexo do próximo – Nebenmensch -, Freud articulou em um só tempo o que é o ‘à parte’ e a similitude, como signo de separação e identidade. Das Ding é justamente a parte do complexo que é isolada pelo sujeito como estranho – Fremde -, desconhecido. Das Ding como estranho constitui esse primeiro exterior, em torno do qual se orienta todo o encaminhamento do sujeito, sua referência em relação ao mundo do desejo (Lacan, 1959/60, p.69).
Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via da alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais (Freud, 1950 [1895], p.370).
Freud atribuiu a essa experiência o complexo do ser humano próximo – Nebenmensch -, formado pela impressão deixada por essa ajuda alheia recebida. Esse complexo se divide em dois componentes: um deles produz uma impressão por sua “estrutura constante e permanece unido como uma coisa (Ding), enquanto o outro pode ser compreendido pela atividade de memória” (Freud, ibid, p.384), ou seja, pode ser representado.
A partir do complexo do próximo – Nebenmensch -, Freud articulou em um só tempo o que é o ‘à parte’ e a similitude, como signo de separação e identidade. Das Ding é justamente a parte do complexo que é isolada pelo sujeito como estranho – Fremde -, desconhecido. Das Ding como estranho constitui esse primeiro exterior, em torno do qual se orienta todo o encaminhamento do sujeito, sua referência em relação ao mundo do desejo (Lacan, 1959/60, p.69).
Vemos que, se em um segundo momento, ao sentir novamente o
desconforto, o sujeito alucina o objeto que diminuiu essa excitação. É apenas a
ausência dessa satisfação esperada que leva o sujeito ao abandono da tentativa
de alcançá-la por meio da alucinação, tentativa guiada pelo princípio de
prazer.
O aparelho psíquico é, então, levado a considerar as
circunstâncias do mundo externo, e empenha-se para efetuar nele uma alteração
real, surgindo assim um novo princípio de funcionamento mental: o princípio de
realidade.
Ao falar do assujeitamento do sujeito ao desejo do Outro,
Lacan trabalha a estreita relação entre demanda e desejo. A demanda figura como
possibilidade de indicar o aparecimento do desejo a partir de um mais além.
Isso porque “o desejo está obrigado à intermediação da fala” (Lacan, 1957-58,
p.369); é nos espaços entre os significantes que ele faz sua morada. Se, em um
primeiro momento, a criança depende da fala do Outro, do sentido que ele dá ao
seu grito, como demonstra a experiência de satisfação, alienando a estrutura de
seu desejo à estrutura da demanda, em um segundo tempo, reconhece um desejo
para além dessa demanda recebida do Outro.
No nível da demanda, há, entre o sujeito e o Outro, uma
situação de reciprocidade, ou seja, tanto o desejo do sujeito depende
inteiramente de sua demanda ao Outro, como o que a Outra demanda também depende
de um posicionamento do sujeito. O sujeito percebe a importância de atender ou
não a essa demanda feita pelo Outro, o que é ilustrado com a angústia que a
filha suscita na mãe quando não come. Assim, ao conceber o campo do Outro como
marcado pelo significante, Lacan coloca a possibilidade de o sujeito se
reconhecer também como aquele que se encontra submetido às leis da linguagem.
“Há sempre algo que resta para além do que pode satisfazer-se
por intermédio do significante, isto é, pela demanda” (Lacan, 1957-58, p.379).
Destacamos, portanto, que a linguagem evidencia a “função desse desejo do
Outro, no que ele permite que a verdadeira distinção entre o sujeito e o Outro
se estabeleça de uma vez por todas” (Lacan, 1957-58, p.371).
O homem fala e, por isso, suas necessidades, o que ele carece, aparece sempre através da linguagem, nas demandas que o sujeito dirige ao Outro (Lacan, id.). A partir dos mecanismos próprios da linguagem, sabemos que a fala retorna sempre para o sujeito de forma invertida, alienada na fala do Outro.
O homem fala e, por isso, suas necessidades, o que ele carece, aparece sempre através da linguagem, nas demandas que o sujeito dirige ao Outro (Lacan, id.). A partir dos mecanismos próprios da linguagem, sabemos que a fala retorna sempre para o sujeito de forma invertida, alienada na fala do Outro.
A necessidade só aparece alienada na demanda, a qual, por sua
vez, se articula na cadeia de significantes. Sendo assim, podemos concluir que
“qualquer coisa que se dê para a necessidade será sempre interpretada em termos
de demanda de amor” (Clastres, 1990, p.51). Já que toda demanda é, antes de
tudo, demanda de amor, o objeto da necessidade é sempre obtido como objeto
signo de amor; o alimento é tomado na relação do sujeito com o Outro como moeda
amorosa. A partir da função da necessidade, o que a criança realmente busca é o
amor, o dom do que não se tem.
É a mãe, como Outro primordial, que fornece uma interpretação
ao grito do sujeito e demanda que ele aceite esse sentido dado por ela. A mãe
traz em si esse Outro, que pode ou não atender a demanda do sujeito, se
situando além da possibilidade de suprir as necessidades daquele. A demanda do
sujeito é regulada pelo jogo de presença – ausência da mãe, ou seja, é preciso
que o objeto falte em algum momento para que o sujeito possa demandar.
A demanda em si refere-se a algo distinto das satisfações por que clama. Ela é demanda de uma presença ou de uma ausência, o que a relação primordial com a mãe manifesta, por ser prenhe desse Outro a ser situado aquém das necessidades que possa suprir (Lacan, 1958b, p.697, grifo do autor).
A demanda em si refere-se a algo distinto das satisfações por que clama. Ela é demanda de uma presença ou de uma ausência, o que a relação primordial com a mãe manifesta, por ser prenhe desse Outro a ser situado aquém das necessidades que possa suprir (Lacan, 1958b, p.697, grifo do autor).
Enquanto a necessidade está do lado do instinto, do
conhecimento e da satisfação, a demanda se encontra ligada à pulsão, ao saber e
a seu estado de insatisfação, ou seja, ao que humaniza o homem. Lacan enriquece
essa diferenciação ao definir o instinto como um modo de conhecimento
necessário para que o ser vivo satisfaça suas necessidades naturais (Lacan,
1960, p.818). Em psicanálise, porém, não se trata do instinto, e sim da pulsão,
que comporta um saber que não se confunde com o conhecimento.
Se a necessidade se aliena na demanda, e se esta é dirigida a
um Outro, retornando para o sujeito, a necessidade também viria do Outro, já
que a noção de demanda implica que o sujeito recebe sua própria mensagem de
forma invertida. “A necessidade não é mais do sujeito, é do Outro, o que
obviamente a desnaturaliza de forma absoluta” (Eidelsztein, 1995, p.53).
Apesar de haver a alienação da necessidade na demanda, a
demanda não anula tudo da necessidade, não a substitui completamente. É a
partir da impossibilidade de sobrepor a demanda e a necessidade que surge um
resto dessa articulação, a saber, o desejo. A demanda transforma tudo em prova
de amor, anulando assim, “a particularidade de tudo aquilo que pode ser
concebido” (Lacan, id). Essa particularidade retornará no ‘para além da
demanda’. Nesse ponto, introduzimos a importante afirmação de Lacan segundo a
qual o desejo está articulado à demanda, mas não é articulável em si (Lacan,
1960), dito de outro modo, só temos notícias do desejo através da demanda, que
é, esta sim, articulável na cadeia de significantes. Uma questão se apresenta
então: onde situar o desejo, se o sujeito é, aqui, definido a partir da
articulação significante?
Lacan indica o caminho mostrando que o desejo “se esboça na
margem em que a demanda se rasga da necessidade” (Lacan, 1960, p.828).
O vão originário dessa articulação se deve à diferença
estrutural entre a demanda e a necessidade. Enquanto a demanda se apresenta
como apelo incondicional ao Outro, a necessidade introduz a impossibilidade de
existir uma satisfação universal (Lacan, ibid.). Com a entrada na linguagem, o
sujeito perde algo da necessidade: seu objeto particular e exclusivo, que não
passa pela demanda e aparecerá como característica do desejo, pois o desejo é o
que singulariza o sujeito (Eidelsztein, 1995).
Seguindo nosso raciocínio, não é a frustração de uma
necessidade que mantém o desejo, ou teríamos que admitir a existência de desejo
nos animais, os quais também estão sujeitos à frustração da necessidade.
O desejo é indestrutível e nenhuma satisfação obtida através
de um objeto real pode preencher a falta do sujeito. É assim que Lacan afirma
que “mesmo o desejo da criança nunca está ligado à pura e simples satisfação
natural” (1956-57, p.186). Quando Anna Freud, ainda pequena, após passar um dia
inteiro com fome, sonha com todas aquelas guloseimas - chegando a exclamar,
enquanto dormia: “Anna Freud, molangos, molangos silvestres, omelete, pudim”
(Freud, 1900 p. 164) -, esses objetos já aparecem como transcendentes, “já
estão na ordem simbólica e eles aparecem no sonho como interditos” (Lacan,
1956-57, p.186). O que esse sonho nos mostra é o desejo em seu estatuto de
insaciável, de insatisfeito.
É através do sintoma, aqui representado na relação peculiar
do sujeito com o alimento ofertado pelo Outro, que o sujeito tenta dar um
sentido ao desejo do Outro, fazendo uma equivalência entre o alimento e esse
desejo. Assim, o sujeito também põe à prova o lugar que ocupa para o Outro,
transformando o alimento em moeda de troca na busca por uma resposta sobre o
desejo do Outro.
Apesar de afirmarmos que, nesse sentido, o sintoma da
anorexia poderia ser entendido como uma posição desejante do sujeito, já que
ele introduz um não, um espaço entre ele e o Outro, não podemos nos esquecer
que essa saída não é um enfrentamento real da falta do Outro S (A/), e sim uma
ilusão de que caberia realmente ao sujeito introduzir, de modo onipotente, a
falta no Outro. Mesmo sendo uma postura desejante, o gozo está fortemente
presente nessa sintomatologia.
Um gozo que, a princípio, relacionamos com os representantes
do objeto a, seio e nada, e que é capaz de levar o sujeito à morte. Apostamos
que será através de um trabalho analítico que a falta no Outro será reconhecida
e trabalhada, gerando uma mudança no posicionamento do sujeito frente esse
Outro. O que a anorexia ilustra e nos ensina é a radicalidade da insatisfação
do desejo e, mais, que a satisfação de nenhuma ‘necessidade’ é capaz de calar o
desejo.
Bibliografia:
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‘Kant com Sade’. Salvador:
Fator, 1990.
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deseo. Buenos Aires: Manantial, 1995.
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Escritos.Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1998.
Editor, 1998.
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de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1998.

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