A adolescência e as Drogas
“O próprio Freud estabeleceu uma teoria da adolescência
sempre falou do infantil, da sexualidade infantil, do adolescente e do adulto.
Fala da fantasia, em seu texto fundamental, a frase fantasmática onde tudo se
em uma criança”.
Esse trabalho opera a separação de dois significantes:
adolescente / drogas.
A inconveniência desta associação não só apenas decorre do fato estar em um momento da vida definido segundo os critérios da biologia, o que faria um individuo fazer uso de drogas.
A inconveniência desta associação não só apenas decorre do fato estar em um momento da vida definido segundo os critérios da biologia, o que faria um individuo fazer uso de drogas.
O uso não é um privilégio na fase da
adolescência, uma vez que muitas crianças fazem uso de entorpecentes, como
muitos adultos fazem, como se o uso das drogas fossem um antidepressivos e
ansiolíticos , práticando as ações, as quais poderíamos chamar de toxicomania
receitada.
Se não é um determinado período da
vida que propicia o uso de drogas, o que é?
Para aqueles que têm o gosto de ler Freud certamente não é estranha a seguinte formulação: “
O uso de drogas não é determinado por uma substância química qualquer, mas por uma predisposição da qual é portador o paciente, tanto assim que não existem cocainômanos que não tenham sido heroinômanos.”
Para aqueles que têm o gosto de ler Freud certamente não é estranha a seguinte formulação: “
O uso de drogas não é determinado por uma substância química qualquer, mas por uma predisposição da qual é portador o paciente, tanto assim que não existem cocainômanos que não tenham sido heroinômanos.”
O que quer dizer Freud com
“predisposição”?
A meu ver o uso de drogas é
diretamente proporcional ao declínio, do que em psicanálise chamamos, da
“função paterna”. Quando falamos em função paterna, conceituação que devemos a
Jacques Lacan, estamos nos referindo a uma operação lógica e não a uma pessoa,
sendo a mãe, a transmissora desta função. Quer dizer, que depende de como a mãe
se relacione com a lei, de como ela tenha recebido a lei que lhe foi
transmitida, para poder, ou transmiti-la, ou falsear com ela. Costumo dizer que
o sujeito que faz uso de drogas, mostra de forma muito clara que o pai e a mãe
traficam o pai enquanto função. Que no triângulo mãe, criança, pai, a lei é
banalizada a ponto de todos tornarem-se comparsas.
A rota do tráfico do pai começa desde
que, ao vir ao mundo, no lugar de ofertar o Dom de sua presença, a mãe lhe
oferece objetos da realidade , empanturrando-o, para suturar uma divisão que
lhe é intolerável.
O pai recusando-se a interdição
torna-se o reprodutor das ações da mãe, numa infinitização de gozo bem ao
estilo da pulsão de morte. Trata-se, portanto do tráfico de uma função que tem
como consequência a sua desoperacionalização. Podemos então dizer que o império
da droga é o reflexo de uma mudança nas “condições do edipianismo”.
Em seu artigo: Introdução Teórica as
Funções da Psicanálise em Criminologia, pág. 135, Lacan faz a seguinte
pontuação: “A autoridade reservada ao pai, único traço subsistente de sua
estrutura original, mostra-se, de fato, cada vez mais instável ou obsoleta, e
as incidências psicopatológicas dessa situação devem ser referidas tanto à
escassez das relações grupais que ela assegura ao indivíduo quanto a
ambivalência cada vez maior de sua estrutura.”
Jones, E – A vida e Obra de Sigmund
Freud, O episódio da cocaína, cap. 6.
Lacan, J – Introdução Teórica as
Funções da Psicanálise de Criminologia, p. 135.
Ao me deparar nesta formulação com as
expressões: “escassez das relações grupais” e “a ambivalência cada vez maior de
sua estrutura”. Não pude deixar de recorrer a um texto pouco citado de Freud, A
Psicologia do Escolar e ali encontrar exatamente, no cerne do referido texto
que, a questão do dito sujeito adolescente, é uma questão que se refere ao
destino do pai enquanto representante da figura imaginária da autoridade, que
ao cair como Outro absoluto, produz uma crise . Há, portanto, neste momento,
uma crise do pai.
Então, o que se operou na civilização
para que se tenha tornado obsoleta ou instável a autoridade do pai ? e, que pai
temos hoje?
Sabemos que em decorrência de fatores
políticos, sociais e econômicos, alteraram-se as condições de troca, de
mercado, as quais se refletem direta ou indiretamente nas relações grupais a
que de modo geral chamamos “Cidade” e neste primeiro e restrito grupo a que
denominamos “Família”.
“O em-comum da cidade teria que ser um
espaço onde os cidadãos se cruzam, sem outro critério de unificação a não ser a
exterioridade de suas relações”. Isto faz um cidadão que de início é um,
qualquer um. Se o grupo familiar gera um cidadão, do par pai e mãe, tomados
ambos como significantes , brota um sujeito, o qual, diferentemente do cidadão
é “singularidade que se afirma por ocasião de um acontecimento a que ele passa
a dever felicidade”.
Observamos, portanto que, o cidadão e
o sujeito não coincidem, mas o que podemos tirar desta não coincidência?
Proporcionar via dispositivo analítico, a passagem do universal ao particular,
ou, sustentar um: a cada um seu real.
A medida que caem os muros da pólis,
em que se foi globalizando o saber que era o que vinha definindo algumas
particularidades culturais, alguns valores, ou se quisermos, hábitos e costumes
dos grupos. À medida que o mestre moderno, não é como o pai que não tem a
resposta para todas as questões, como o mestre que Freud descreve em sua
Psicologia do Escolar. Perpetua-se uma potência imaginária que faz do outro um
Grande Outro consistente, senhor de tudo e de todos.
Trata-se de outro para quem o homem é
uma pobre alma que deve ser protegida e dirigida por um sistema ao qual tudo
deve. Dívida que nada tendo de simbólica deve ser paga com toda a carne, na
doação de órgãos, no comércio das crianças, nas cidades onde o tirano vai
lançar suas bombas precisamente sobre os que não aceitam suas injunções,
mostrando que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
É preciso correr atrás dos bens de
capital que o senhor estoca para revendê-los quando os escravos modernos já
estiverem dispostos a pagar por eles com a carne que não comem e com os sonhos
que deixaram de sonhar. É preciso entorpecer o desejo.
Que pais têm hoje?
Que pais têm hoje?
O pai da horda primitiva era aquele
que possuía a todas as mulheres e por isso impeliu os filhos a destruí-lo
fundando a exceção, o ao menos um que ao escapar da lei a reforça. A exceção
faz a regra. O pai da horda tecnológica não pode ser morto porque não é
encontravel é desaparecido, podendo gozar de todos os bens de consumo sem qualquer
consequência. Como desaparecer não é o mesmo que morrer o pai da horda
tecnológica é um pai feroz, um pai que não reconhece os limites da lei, um pai incontrastável que não deixa lugar à falta.
Foi porque o pai foi morto pelos
filhos que eles não puderam mais gozar de todas as mulheres, fazendo da culpa
um anteparo frente a angústia. O pai nosso de todos os dias não tem sepultura
porque é imortal, surgindo sempre, não para interditar o gozo, mas para
promover o impuxo ao gozo, razão pela qual o filho que disse ao pai: “Pai não
vês que estou queimando!” diz agora, que o pai está desaparecido: “Pai não vês
que estou gozando!”. Aquele que deveria interditar para com seu ato viabilizar
o desejo, ao condescender com o gozo inviabiliza o desejo.
O pai já não é aquele! Na periferia
das grandes cidades famílias de baixa renda suprem a ausência real do pai, que
convocado pelo moderno senhor, não ganha o suficiente se quer para repousar
todas as noites em sua casa. A mãe, deixada em solidão, faz muitas vezes dos filhos
parceiros de suas angústias, convocando-os a um lugar que lhes esteve desde
sempre interditado, não podendo nomear o pai, senão, como ausente. Deslocados,
ambos de sua função, temos o que a certa época era apenas uma licença poética,
um “sem pai nem mãe.”.
O pai que nomeia só é eficaz na medida
em que ele participa da função. Contemporaneamente, portanto, constatamos que
“o conceito de pai acabou liberado da carga de poder, evidenciada como
caduca.”.
Se o pai contemporâneo está
desaparecido, se ele não pode ser encontrado para exercer o modelo da função
que lhe cabe: interditar o gozo e viabilizar o desejo instaurando a falta, como
comprometer-se numa escolha de objeto sempre faltoso? O desastre que atinge o
pai “enfermidade maior da cultura industrializada”, impede de dar ao filho o
estatuto de filho, o qual não podendo ser reconhecido não reconhece o pai e, ao
não poder levar o nome do pai, desaparece como o pai levando o nome do produto
industrial: toxicômano, alcoolista, depressivo, ansioso.
Bibliografia:
Bentes, L - La Ruta Del Tráfico del Padre, Pharmakon n 3, Publicavión de Grupos e Intituciones de Toxicomanias y Alcoolismo del Campo Freudiano, B. Aires, 1995
Freud, S – Algumas Reflexões sobre a Psicologia d Escolar (1914), vol. XIII Obras Completas, Imago Ed, RJ, 1980.
Bentes, L - La Ruta Del Tráfico del Padre, Pharmakon n 3, Publicavión de Grupos e Intituciones de Toxicomanias y Alcoolismo del Campo Freudiano, B. Aires, 1995
Freud, S – Algumas Reflexões sobre a Psicologia d Escolar (1914), vol. XIII Obras Completas, Imago Ed, RJ, 1980.
Jones, E – Vida e Obra de Sigmund
Freud, Zahar Ed, RJ, Lacan, J – Introdução Teórica as
Funções da Psicanálise em Criminologia, Escritos, Zahar Ed, RJ, 1998

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