quarta-feira, 16 de julho de 2014

A adolescência e as Drogas

A adolescência e as Drogas

“O próprio Freud estabeleceu uma teoria da adolescência sempre falou do infantil, da sexualidade infantil, do adolescente e do adulto. Fala da fantasia, em seu texto fundamental, a frase fantasmática onde tudo se em uma criança”.
Esse trabalho opera a separação de dois significantes: adolescente / drogas. 
A inconveniência desta associação não só apenas decorre do fato estar em um momento da vida definido segundo os critérios da biologia, o que faria um individuo fazer uso de drogas. 
O uso não é um privilégio na fase da adolescência, uma vez que muitas crianças fazem uso de entorpecentes, como muitos adultos fazem, como se o uso das drogas fossem um antidepressivos e ansiolíticos , práticando as ações, as quais poderíamos chamar de toxicomania receitada. 
Se não é um determinado período da vida que propicia o uso de drogas, o que é?
Para aqueles que têm o gosto de ler Freud certamente não é estranha a seguinte formulação: “
O uso de drogas não é determinado por uma substância química qualquer, mas por uma predisposição da qual é portador o paciente, tanto assim que não existem cocainômanos que não tenham sido heroinômanos.” 
O que quer dizer Freud com “predisposição”? 
A meu ver o uso de drogas é diretamente proporcional ao declínio, do que em psicanálise chamamos, da “função paterna”. Quando falamos em função paterna, conceituação que devemos a Jacques Lacan, estamos nos referindo a uma operação lógica e não a uma pessoa, sendo a mãe, a transmissora desta função. Quer dizer, que depende de como a mãe se relacione com a lei, de como ela tenha recebido a lei que lhe foi transmitida, para poder, ou transmiti-la, ou falsear com ela. Costumo dizer que o sujeito que faz uso de drogas, mostra de forma muito clara que o pai e a mãe traficam o pai enquanto função. Que no triângulo mãe, criança, pai, a lei é banalizada a ponto de todos tornarem-se comparsas.
A rota do tráfico do pai começa desde que, ao vir ao mundo, no lugar de ofertar o Dom de sua presença, a mãe lhe oferece objetos da realidade , empanturrando-o, para suturar uma divisão que lhe é intolerável. 
O pai recusando-se a interdição torna-se o reprodutor das ações da mãe, numa infinitização de gozo bem ao estilo da pulsão de morte. Trata-se, portanto do tráfico de uma função que tem como consequência a sua desoperacionalização. Podemos então dizer que o império da droga é o reflexo de uma mudança nas “condições do edipianismo”. 
Em seu artigo: Introdução Teórica as Funções da Psicanálise em Criminologia, pág. 135, Lacan faz a seguinte pontuação: “A autoridade reservada ao pai, único traço subsistente de sua estrutura original, mostra-se, de fato, cada vez mais instável ou obsoleta, e as incidências psicopatológicas dessa situação devem ser referidas tanto à escassez das relações grupais que ela assegura ao indivíduo quanto a ambivalência cada vez maior de sua estrutura.”
Jones, E – A vida e Obra de Sigmund Freud, O episódio da cocaína, cap. 6.
Lacan, J – Introdução Teórica as Funções da Psicanálise de Criminologia, p. 135.
Ao me deparar nesta formulação com as expressões: “escassez das relações grupais” e “a ambivalência cada vez maior de sua estrutura”. Não pude deixar de recorrer a um texto pouco citado de Freud, A Psicologia do Escolar e ali encontrar exatamente, no cerne do referido texto que, a questão do dito sujeito adolescente, é uma questão que se refere ao destino do pai enquanto representante da figura imaginária da autoridade, que ao cair como Outro absoluto, produz uma crise . Há, portanto, neste momento, uma crise do pai.
Então, o que se operou na civilização para que se tenha tornado obsoleta ou instável a autoridade do pai ? e, que pai temos hoje? 
Sabemos que em decorrência de fatores políticos, sociais e econômicos, alteraram-se as condições de troca, de mercado, as quais se refletem direta ou indiretamente nas relações grupais a que de modo geral chamamos “Cidade” e neste primeiro e restrito grupo a que denominamos “Família”.
“O em-comum da cidade teria que ser um espaço onde os cidadãos se cruzam, sem outro critério de unificação a não ser a exterioridade de suas relações”. Isto faz um cidadão que de início é um, qualquer um. Se o grupo familiar gera um cidadão, do par pai e mãe, tomados ambos como significantes , brota um sujeito, o qual, diferentemente do cidadão é “singularidade que se afirma por ocasião de um acontecimento a que ele passa a dever felicidade”.
Observamos, portanto que, o cidadão e o sujeito não coincidem, mas o que podemos tirar desta não coincidência? Proporcionar via dispositivo analítico, a passagem do universal ao particular, ou, sustentar um: a cada um seu real.
A medida que caem os muros da pólis, em que se foi globalizando o saber que era o que vinha definindo algumas particularidades culturais, alguns valores, ou se quisermos, hábitos e costumes dos grupos. À medida que o mestre moderno, não é como o pai que não tem a resposta para todas as questões, como o mestre que Freud descreve em sua Psicologia do Escolar. Perpetua-se uma potência imaginária que faz do outro um Grande Outro consistente, senhor de tudo e de todos. 
Trata-se de outro para quem o homem é uma pobre alma que deve ser protegida e dirigida por um sistema ao qual tudo deve. Dívida que nada tendo de simbólica deve ser paga com toda a carne, na doação de órgãos, no comércio das crianças, nas cidades onde o tirano vai lançar suas bombas precisamente sobre os que não aceitam suas injunções, mostrando que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
É preciso correr atrás dos bens de capital que o senhor estoca para revendê-los quando os escravos modernos já estiverem dispostos a pagar por eles com a carne que não comem e com os sonhos que deixaram de sonhar. É preciso entorpecer o desejo.
Que pais têm hoje? 
O pai da horda primitiva era aquele que possuía a todas as mulheres e por isso impeliu os filhos a destruí-lo fundando a exceção, o ao menos um que ao escapar da lei a reforça. A exceção faz a regra. O pai da horda tecnológica não pode ser morto porque não é encontravel é desaparecido, podendo gozar de todos os bens de consumo sem qualquer consequência. Como desaparecer não é o mesmo que morrer o pai da horda tecnológica é um pai feroz, um pai que não reconhece os limites da lei, um pai incontrastável que não deixa lugar à falta.
Foi porque o pai foi morto pelos filhos que eles não puderam mais gozar de todas as mulheres, fazendo da culpa um anteparo frente a angústia. O pai nosso de todos os dias não tem sepultura porque é imortal, surgindo sempre, não para interditar o gozo, mas para promover o impuxo ao gozo, razão pela qual o filho que disse ao pai: “Pai não vês que estou queimando!” diz agora, que o pai está desaparecido: “Pai não vês que estou gozando!”. Aquele que deveria interditar para com seu ato viabilizar o desejo, ao condescender com o gozo inviabiliza o desejo.
O pai já não é aquele! Na periferia das grandes cidades famílias de baixa renda suprem a ausência real do pai, que convocado pelo moderno senhor, não ganha o suficiente se quer para repousar todas as noites em sua casa. A mãe, deixada em solidão, faz muitas vezes dos filhos parceiros de suas angústias, convocando-os a um lugar que lhes esteve desde sempre interditado, não podendo nomear o pai, senão, como ausente. Deslocados, ambos de sua função, temos o que a certa época era apenas uma licença poética, um “sem pai nem mãe.”.
O pai que nomeia só é eficaz na medida em que ele participa da função. Contemporaneamente, portanto, constatamos que “o conceito de pai acabou liberado da carga de poder, evidenciada como caduca.”. 
Se o pai contemporâneo está desaparecido, se ele não pode ser encontrado para exercer o modelo da função que lhe cabe: interditar o gozo e viabilizar o desejo instaurando a falta, como comprometer-se numa escolha de objeto sempre faltoso? O desastre que atinge o pai “enfermidade maior da cultura industrializada”, impede de dar ao filho o estatuto de filho, o qual não podendo ser reconhecido não reconhece o pai e, ao não poder levar o nome do pai, desaparece como o pai levando o nome do produto industrial: toxicômano, alcoolista, depressivo, ansioso. 

Bibliografia:

Bentes, L - La Ruta Del Tráfico del Padre, Pharmakon n 3, Publicavión de Grupos e Intituciones de Toxicomanias y Alcoolismo del Campo Freudiano, B. Aires, 1995
Freud, S – Algumas Reflexões sobre a Psicologia d Escolar (1914), vol. XIII Obras Completas, Imago Ed, RJ, 1980.
Jones, E – Vida e Obra de Sigmund Freud, Zahar Ed, RJ, Lacan, J – Introdução Teórica as Funções da Psicanálise em Criminologia, Escritos, Zahar Ed, RJ, 1998

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