quinta-feira, 21 de março de 2013

VIDA AFETIVA-EMOTIVA NUTRIÇÃO

Psicologia Fisiológica
VIDA AFETIVO-EMOTIVA NUTRIÇÃO


Evitando quanto possível entrar em problemas de psicopatologia ou de psicologia pura, vejamos em breves traços algumas correlações psicofisiológicas, focalizando em primeiro lugar o setor afetivo da personalidade.
Como afetividade entendemos o conjunto de tendências inconscientes instintivas, que impelem o indivíduo humano continuamente a satisfazer as necessidades da própria existência e a adaptar-se  harmonicamente aos interesses gregários ou sociais. É a acepção da escola positiva8,9,22,56. Constitui a afetividade, o setor principal da personalidade, que a unifica e ao mesmo tempo lhe regula o interesse pelo meio exterior e a atuação sobre este. Daí resulta que tal esfera mantenha contato apenas indireto com o mundo externo e, por outro lado, que os distúrbios dela se reflitam acentuadamente nos demais níveis da personalidade. Mesmo em condições normais estas inter-relações do indivíduo para com o ambiente fazem com que se apresentem gradações qualitativas nas diversas manifestações afetivas; e há que considerar aí condições subjetivas intrínsecas — comuns ao homem e a toda a série animal, dentro de certos limites — e manifestações secundárias, que se tornam peculiares à nossa espécie.
Conforme temos feito notar em outras oportunidades, as funções  do primeiro grupo agora referido são necessariamente inconscientes e a elas se aplicam indistintamente as designações de móveis, impulsos, tendências ou instintos. A este propósito deixamos claro que não vemos razão para reservar o termo instinto para o caso da animalidade subumana. É verdade que mesmo em autores contemporâneos encontramos semelhante distinção, de sabor escolástico: "Como é sabido — escreve Rohracher — falamos em instinto quando o animal executa ações que nunca lhe haviam ensinado e que somente em futuro remoto, freqüentemente só para a descendência do animal, se revelam altamente adequadas". Mas o que caracteriza o instinto, e que aliás ressalta das expressões agora transcritas, são a inateidade e a autonomia para com a inteligência. Não cabe aqui fundamentar essas considerações, que apenas se destinam a justificar a terminologia adotada.
Desse conjunto de atributos instintivos intrínsecos, ao qual logo voltaremos, cumpre distinguir os sentimentos complexos de Laffitte — para exemplo, o amor à pátria, o pundonor —, as afeições, os afetos, que representam manifestação consciente desses impulsos na vida subjetiva e polarizada para o ambiente. O conceito de afetos é pois inseparável da noção de experiência do indivíduo em face ao ambiente físico e social. 
Os autores em geral ilustram esta distinção, embora nem sempre o façam do modo explícito. Por exemplo, na monografia neurofisiológica já citada61, diz Müller: "Os sentimentos vitais (Vitalgefühle) isto é, o sentimento genérico (Allgemeingefühl) quanto ao estado somático, que acompanha as sensações corporais, desencadeiam "estados de ânimo" ("Stimmungen") que se mostram positivos — isto é, de tonalidade alegre — em estado hígido, e negativos — ou seja, penosos — quando é mau o estado geral somático, o que a seu turno se exprime no tono da musculatura corporal, principalmente ao nível do rosto.
"A vida afetiva (Gefühlsleben) não é porém, influenciada apenas pelas sensações gerais advindas do corpo, como a fome ou o cansaço: sofre também oscilações provenientes das impressões do ambiente sobre o sistema nervoso. Designamos com os termos "emoções" ou "afetos" tais oscilações da vida emotiva e psíquica (Gemüts-und Seelenleben)".
É comparável a essa a acepção, mais precisa e descrita com outros termos, que se encontra na monografia de De Crinis: “A comoção (Ergriffenheit)exercida sobre o organismo pelos processos ambienciais constitui assim o fundamento do afeto. Ao tornar-se percepção subjetiva a comoção do organismo, realizam-se as condições preliminares (Voraussetzungen) para o afeto. Este pode assim definir-se abreviadamente, sob o aspecto psicofisiológico, como a comoção percebida” 24.
Também a emotividade, ou seja, o conjunto de emoções, na acepção, deve ser separada da afetividade propriamente dita. Trata-se igualmente aí de reação derivada destes últimos atributos em face do estímulo — seja ambiencial, seja subjetivo — em sentido algo diverso aferente. A gama de modificações, vegetativas, motoras, intelectuais e afetivas, que se entrelaçam na emoção, já a caracterizava claramente Ribot: "Para nós, a emoção é, na ordem afetiva, o equivalente da percepção na ordem intelectual: estado complexo, que se compõe essencialmente de movimentos produzidos ou detidos, de modificações orgânicas (na circulação, na respiração etc), dum estado de consciência agradável ou penoso, ou misto, peculiar a cada emoção".
O mister de reger permanentemente a unidade interna, subjetiva e objetiva, sem que se perturbe a adaptação social, faz com que a afetividade compreenda dois grupos de instintos: os da individualidade e os da sociabilidade. Dentre aqueles, o da nutrição ou conversão individual constitui o impulso orientador de semelhante regência naquilo que entende com o sistema vegetativo, a qual se exprime através do consenso visceral. Os demais atributos afetivos participam desta unificação apenas a título indireto, através daquele. Cabe a denominação genérica de instintos ao grupo básico de atributos afetivos — ao qual designamos como da individualidade. Aos que promovem a integração do indivíduo na constelação social — os da sociabilidade, corresponde melhor a designação de sentimentos. Tal distinção, que só foi estabelecida em definitivo e cientificamente por Augusto Comte, em 1850, encontramos também nas áreas da psicologia hodierna em que se analisa de modo mais profundo o mundo subjetivo. É o caso dos autores de língua alemã em contraste com os norte-americanos, em geral, que rejeitam a designação de instintos em referência ao homem. Leonhard, por exemplo, que não conhece a doutrina de Comte, distribui os instintos humanos em primitivos (Urinstinkte), e adaptados — egoísticos, altruísticos, gregários e sociais (egotistiche, altruistiche, Gruppierungs, Gemeinschftsinstinkte) respectivamente. A esse complexo grupo de instintos, Leonhard separa do grupo dos impulsos (Triebe) e do de sentimentos (Gefühle), como integrantes da vida afetiva58. E focaliza ainda esse problema dinâmico-estrutural em sentido evolutivo, ao estudar — baseado em 200 casos clínicos — a participação dos instintos", adatados e primitivos, na sexualidade humana"59.
Na doutrina de Comte8,9,22,56 são 7 as funções que compõem os instintos egoísticos, ou individualidade, e 3 as que constituem o altruísmo, ousociabilidade. E o amadurecimento psicológico, paralelo à maturação do sistema nervoso, consiste na submissão gradativa e contínua do primeiro grupo ao segundo, ambos embora inatos e não redutíveis um a outro. Este processo de subordinação como seqüência do amadurecimento psíquico é reconhecido por psicólogos atuais, tais como Allport: "A aprendizagem, agindo sobre os instintos e a hereditariedade, leva à formação de estruturas mais ou menos estáveis, entre as quais nomeamos a consciência moral, o autoconceito, e uma organização hierárquica da personalidade. Mas tal não sucederia se estes estágios não estivessem incluídos em nossa natureza como possibilidades inatas". E, linhas abaixo: "Desenvolver-se é um processo que consiste em incorporar os estágios anteriores aos posteriores; ou, quando isto não é possível, em moderar tanto quanto se pode o conflito entre estágios anteriores e posteriores."

Correlação entre funções e órgãos — Segundo lembramos ao iniciar o tópico presente, o conjunto da afetividade não se liga de modo ao mundo exterior. Analogamente, o instinto nutritivo, que rege toda a integração vegetativa, não poderia estar ligado diretamente ao mundo visceral: torna-se necessária a existência de aparelhagem intermediária, autônoma de certa forma, entre aquele instinto e as vísceras. Juntamente com o da nutrição, o instinto de conservação da espécie (sexual) representa o conjunto inferior, hierarquicamente, do grupo da individualidade: dirige a  maturação, depois o dinamismo, das glândulas sexuais em sentido lato. Essa posição peculiar de ambos na esfera da personalidade fez com que a escola positivista localizasse os órgãos correspondentes no córtex encefálico menos diferenciado: as regiões paleocerebelar e neocerebelar, respectivamente. Tal localização funcional se acha corroborada por experiências tanto contemporâneas quanto do período clássico das "mutilações cerebrais", cuja discussão entretanto não é oportuna neste passo. Parece-nos, porém, relevante acentuar a importante contraprova que está surgindo das pesquisas recentes de Weniger, em São Paulo. Admitindo que o câncer represente anomalia do processo nutritivo — como é geralmente aceito —, procura verificar geneticamente a participação do cerebelo no processo cancerígeno: isto é, antes que a lesão se instale. Usa para isso camundongos de linhagem cancerosa, ainda indenes. E tem demonstrado que nesses exemplares ocorre anomalia grave das células de Purkinje, de modo significativo.
Outros instintos gradativamente menos grosseiros completam o setor egoístico da personalidade; os órgãos cerebrais respectivos podem identificar-se nas diversas áreas do córtex parieto-occipital, no indivíduo humano. Finalmente, dentre os atributos ou pendores altruísticos — apego, veneração, bondade, este último corresponde a órgão situado na porção alta da convexidade frontal. Tais localizações são também confirmadas por verificações anatomoclínicas e mesmo, no que é cabível, pela experimentação em primatas subumanos e pela cirurgia cerebral  humana. Deixando à margem essa questão das localizações funcionais no córtex cerebral, vejamos apenas, e em breves traços, outra modalidade de correlações psicofisiológicas. Referimo-nos às estruturas subcorticais que medeiam entre os instintos da conservação — individual e da espécie — e o conjunto visceral, mencionadas linhas atrás.
       
Substrato anatômico da regência vegetativa — Embora só em época relativamente recente haja sido objeto de pesquisas sistemáticas, tal aparelhagem é já bem conhecida, pelo menos em parte, na experimentação e na clínica. Consiste ela na chamada regência do sistema autônomo — simpático e parassimpático — e se processa através dos “núcleos vegetativos” da região hipotalâmica14,46,64. Situados em região cerebral filogeneticamente antiga, como foi dito, semelhantes núcleos centroencefálicos de substância cinzenta mantêm ligações complexas com as estruturas vizinhas. São estas, conforme se acha bem estabelecido, as regiões paleocorticais do cérebro: zona orbitária, cíngulo, retro-esplênio. Mantém-nas também, inferíamos nós, possivelmente com os sistemas cerebelares, dada a solidariedade que se manifesta na patologia. Experiências recentes, ulteriores à 1ª edição deste capítulo, têm confirmado de modo indubitável esta suposição. Não vem ao caso comentá-las.
Conquanto a experimentação haja precisado correlações fisiológicas indiscutíveis, as deduções teóricas a respeito do dinamismo desses núcleos na vida psíquica têm sido não raro confusas e mesmo, em nosso entender, ilógicas. A princípio as investigações anatomopatológicas, depois a neurofisiologia e por fim as técnicas da neurocirurgia fina, revelaram que os referidos núcleos celulares regulam — além das funções sexuais em sentido lato — as trocas metabólicas viscerais, a sudorese, o calor animal, a circulação. Essas diferentes regências vegetativas competem especificamente a núcleos distintos, os quais se reúnem em três grupos no hipotálamo: anterior, médio e posterior. Mais recentemente os estudos bioquímicos puderam revelar afinidades específicas dos diferentes núcleos para com substâncias químicas; e essas descobertas de laboratório logo se mostraram poderosos recursos terapêuticos, no domínio da psiquiatria e mesmo em distúrbios emocionais não psicóticos. Por outro lado, as pesquisas atinentes aos dinamismos hormonais e aos processos bioquímicos de ativação e de impedimento da transmissão neuronal têm dado ênfase à participação do hipotálamo no funcionamento  psíquico. Sob esse ângulo têm cabimento as considerações de Krapf: “Finalmente — e isto nos interessa aqui especialmente — intervém nas alternativas do estado de consciência (vigília, sono etc)  e codetermina a motilidade de tipo emocional (expressiva) e instintiva (impulsiva), provavelmente como estação “transformadora” de atividades hormonais em inervações e vice-versa”52. Este campo de atuação médica põe em evidência sintomas vegetativos que decorrem de processos emocionais inconscientes e que só mediante a desmontagem psicanalítica são passíveis de solução.
As precedentes considerações de ordem neurovegetativa e psicofisiológica não autorizam porém, segundo entendemos, a concepção teórica do hipotálamo como estância diretora da personalidade ou como sede dos fenômenos instintivo-emocionais. Semelhante ilação doutrinária, agora em voga, se exemplifica nas conclusões de Rof Carballo: “Já não é possível continuar considerando o córtex como o nível superior de integração. Nele se espraiam em grande superfície as projeções somatotópicas provenientes da pele, dos músculos, dos órgãos dos sentidos e, ao mesmo tempo, projeções somatotópicas viscerais muito menos diferenciadas, que com as anteriores estabelecem relações de contigüidade. Porém a integração fundamental que cria a unidade do ser vivo se realiza fora do córtex e mesmo fora do cérebro, no sistema centroencefálico, ao articular-se a totalidade da inervação visceral ou vegetativa com o sistema somático da vida de relação”. Força é ter presente que os núcleos vegetativos do hipotálamo são autônomos apenas em aparência: constituem aparelhagem subordinada fundamentalmente aos instintos de nutrição e sexual como dissemos de início. Representam estação intercalada nas vias córtico-corticais entre cerebelo e cérebro, por um lado: e por outro, no sistema através do qual o cerebelo rege o mundo vegetativo, em que se inclui o próprio encéfalo.
 

Bibliografia
8. Audiffrent, G. – Du cerveau et de l’innervation – Dunod, Paris; 1869
9. Audiffrent, G. – Des maladies du cerveau – Leroux. Paris, 1874.
14. Beaunis, H. – L’ évolution du sistème nerveux – Baillière. Paris, 1890.
22. Cairo, N. – Elementos de Fisiologia. 2ª ed., 2 vols. Haupt, Curitiba, 1926. (Ver vol. II, págs. De 61 a 663).
24. De Crinis, M. – Der Affekt und seine körperlichen Grundlagen. Thieme. Leipizig, 1944.
46. Hess, W. R. – Psychologie in biologischer Sicht. Thieme Stuttgart, 1962.
52. Krapf, E. E. – Psiquiatria, Tomo I: Personalogia. Psiquiatria general. Paidós. Buenos Aires, 1959.
56. Lemos, J. Teoria normal do cérebro e da inervação. Anais Assist. Psicopatas. Rio, I:67-81, 1931.
58. Leonhard, K. – Biologische Psychologie, 3. Aufl. Barth. Leipizig, 1963.
59. Leonhard, K. – Instinkte und Urinstinkte in der menschlichen Sexualität. Enke. Stuttgart, 1964.
61. Magoun, H. W. – a) The waking brain. Thomas. Springfield, 1958. b) Le cerveau éveillé (trad. S. Dumont). PUF. Paris, 1960. c) El cérebro despierto (trad. R. H. Peón). Prensa Médica Mexicana. México, 1964.
64. Müller, L. R. – Die Einteilung des Nervensystems nach seinen Leistungen, 2. Aufl. Thieme. Stuttgart, 1950. (1. Aufl. 1933).

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