Psicologia Fisiológica
VIDA AFETIVO-EMOTIVA NUTRIÇÃO
Evitando quanto possível entrar em
problemas de psicopatologia ou de psicologia pura, vejamos em breves traços
algumas correlações psicofisiológicas, focalizando em primeiro lugar o setor
afetivo da personalidade.
Como afetividade entendemos o
conjunto de tendências inconscientes instintivas, que impelem o indivíduo
humano continuamente a satisfazer as necessidades da própria existência e a
adaptar-se harmonicamente aos interesses gregários ou sociais.
É a acepção da escola positiva8,9,22,56. Constitui a afetividade, o setor
principal da personalidade, que a unifica e ao mesmo tempo lhe regula o
interesse pelo meio exterior e a atuação sobre este. Daí resulta que tal esfera
mantenha contato apenas indireto com o mundo externo e, por outro lado, que os
distúrbios dela se reflitam acentuadamente nos demais níveis da personalidade.
Mesmo em condições normais estas inter-relações do indivíduo para com o
ambiente fazem com que se apresentem gradações qualitativas nas diversas
manifestações afetivas; e há que considerar aí condições subjetivas intrínsecas
— comuns ao homem e a toda a série animal, dentro de certos limites — e
manifestações secundárias, que se tornam peculiares à nossa espécie.
Conforme temos feito notar em outras
oportunidades, as funções do primeiro grupo agora referido são
necessariamente inconscientes e a elas se aplicam indistintamente as
designações de móveis, impulsos, tendências ou instintos. A este propósito
deixamos claro que não vemos razão para reservar o termo instinto para
o caso da animalidade subumana. É verdade que mesmo em autores contemporâneos
encontramos semelhante distinção, de sabor escolástico: "Como é sabido —
escreve Rohracher — falamos em instinto quando o animal executa ações que nunca
lhe haviam ensinado e que somente em futuro remoto, freqüentemente só para a
descendência do animal, se revelam altamente adequadas". Mas o que
caracteriza o instinto, e que aliás ressalta das expressões agora transcritas,
são a inateidade e a autonomia para com a inteligência. Não cabe aqui
fundamentar essas considerações, que apenas se destinam a justificar a
terminologia adotada.
Desse conjunto de atributos
instintivos intrínsecos, ao qual logo voltaremos, cumpre distinguir os sentimentos
complexos de Laffitte — para exemplo, o amor à pátria, o pundonor —, as
afeições, os afetos, que representam manifestação consciente desses impulsos na
vida subjetiva e polarizada para o ambiente. O conceito de afetos é pois
inseparável da noção de experiência do indivíduo em face ao ambiente físico e
social.
Os autores em geral ilustram esta
distinção, embora nem sempre o façam do modo explícito. Por exemplo, na
monografia neurofisiológica já citada61, diz Müller: "Os sentimentos
vitais (Vitalgefühle) isto é, o sentimento genérico (Allgemeingefühl) quanto ao
estado somático, que acompanha as sensações corporais, desencadeiam
"estados de ânimo" ("Stimmungen") que se mostram positivos
— isto é, de tonalidade alegre — em estado hígido, e negativos — ou seja,
penosos — quando é mau o estado geral somático, o que a seu turno se exprime no
tono da musculatura corporal, principalmente ao nível do rosto.
"A vida afetiva (Gefühlsleben)
não é porém, influenciada apenas pelas sensações gerais advindas do corpo, como
a fome ou o cansaço: sofre também oscilações provenientes das impressões do
ambiente sobre o sistema nervoso. Designamos com os termos "emoções"
ou "afetos" tais oscilações da vida emotiva e psíquica (Gemüts-und
Seelenleben)".
É comparável a essa a acepção, mais
precisa e descrita com outros termos, que se encontra na monografia de De
Crinis: “A comoção (Ergriffenheit)exercida sobre o organismo pelos processos
ambienciais constitui assim o fundamento do afeto. Ao tornar-se percepção
subjetiva a comoção do organismo, realizam-se as condições preliminares (Voraussetzungen) para
o afeto. Este pode assim definir-se abreviadamente, sob o aspecto
psicofisiológico, como a comoção percebida” 24.
Também a emotividade, ou seja, o
conjunto de emoções, na acepção, deve ser separada da afetividade propriamente
dita. Trata-se igualmente aí de reação derivada destes últimos atributos em
face do estímulo — seja ambiencial, seja subjetivo — em sentido algo diverso
aferente. A gama de modificações, vegetativas, motoras, intelectuais e
afetivas, que se entrelaçam na emoção, já a caracterizava claramente Ribot:
"Para nós, a emoção é, na ordem afetiva, o equivalente da
percepção na ordem intelectual: estado complexo, que se compõe essencialmente
de movimentos produzidos ou detidos, de modificações orgânicas (na
circulação, na respiração etc), dum estado de consciência agradável ou
penoso, ou misto, peculiar a cada emoção".
O mister de reger permanentemente a
unidade interna, subjetiva e objetiva, sem que se perturbe a adaptação social,
faz com que a afetividade compreenda dois grupos de instintos: os da
individualidade e os da sociabilidade. Dentre aqueles, o da nutrição ou
conversão individual constitui o impulso orientador de semelhante regência
naquilo que entende com o sistema vegetativo, a qual se exprime através do
consenso visceral. Os demais atributos afetivos participam desta unificação
apenas a título indireto, através daquele. Cabe a denominação genérica de
instintos ao grupo básico de atributos afetivos — ao qual designamos como
da individualidade. Aos que promovem a integração do indivíduo na
constelação social — os da sociabilidade, corresponde melhor a designação
de sentimentos. Tal distinção, que só foi estabelecida em definitivo e
cientificamente por Augusto Comte, em 1850, encontramos também nas áreas da
psicologia hodierna em que se analisa de modo mais profundo o mundo subjetivo.
É o caso dos autores de língua alemã em contraste com os norte-americanos, em
geral, que rejeitam a designação de instintos em referência ao homem. Leonhard,
por exemplo, que não conhece a doutrina de Comte, distribui os instintos
humanos em primitivos (Urinstinkte), e adaptados — egoísticos, altruísticos,
gregários e sociais (egotistiche, altruistiche, Gruppierungs,
Gemeinschftsinstinkte) respectivamente. A esse complexo grupo de instintos,
Leonhard separa do grupo dos impulsos (Triebe) e do de sentimentos (Gefühle),
como integrantes da vida afetiva58. E focaliza ainda esse problema
dinâmico-estrutural em sentido evolutivo, ao estudar — baseado em 200 casos
clínicos — a participação dos instintos", adatados e primitivos, na
sexualidade humana"59.
Na doutrina de Comte8,9,22,56 são
7 as funções que compõem os instintos egoísticos, ou individualidade,
e 3 as que constituem o altruísmo, ousociabilidade. E o amadurecimento
psicológico, paralelo à maturação do sistema nervoso, consiste na submissão
gradativa e contínua do primeiro grupo ao segundo, ambos embora inatos e não
redutíveis um a outro. Este processo de subordinação como seqüência do amadurecimento
psíquico é reconhecido por psicólogos atuais, tais como Allport: "A
aprendizagem, agindo sobre os instintos e a hereditariedade, leva à formação de
estruturas mais ou menos estáveis, entre as quais nomeamos a consciência moral,
o autoconceito, e uma organização hierárquica da personalidade. Mas tal
não sucederia se estes estágios não estivessem incluídos em nossa natureza como
possibilidades inatas". E, linhas abaixo: "Desenvolver-se é um
processo que consiste em incorporar os estágios anteriores aos posteriores; ou,
quando isto não é possível, em moderar tanto quanto se pode o conflito entre
estágios anteriores e posteriores."
Correlação entre funções e órgãos —
Segundo lembramos ao iniciar o tópico presente, o conjunto da afetividade não
se liga de modo ao mundo exterior. Analogamente, o instinto nutritivo, que
rege toda a integração vegetativa, não poderia estar ligado diretamente ao
mundo visceral: torna-se necessária a existência de aparelhagem intermediária,
autônoma de certa forma, entre aquele instinto e as vísceras. Juntamente com o
da nutrição, o instinto de conservação da espécie (sexual) representa o
conjunto inferior, hierarquicamente, do grupo da individualidade: dirige
a maturação, depois o dinamismo, das glândulas sexuais em sentido
lato. Essa posição peculiar de ambos na esfera da personalidade fez com que a
escola positivista localizasse os órgãos correspondentes no córtex encefálico
menos diferenciado: as regiões paleocerebelar e neocerebelar, respectivamente.
Tal localização funcional se acha corroborada por experiências tanto
contemporâneas quanto do período clássico das "mutilações cerebrais",
cuja discussão entretanto não é oportuna neste passo. Parece-nos, porém,
relevante acentuar a importante contraprova que está surgindo das pesquisas
recentes de Weniger, em São Paulo. Admitindo que o câncer represente anomalia
do processo nutritivo — como é geralmente aceito —, procura verificar
geneticamente a participação do cerebelo no processo cancerígeno: isto é, antes
que a lesão se instale. Usa para isso camundongos de linhagem cancerosa, ainda
indenes. E tem demonstrado que nesses exemplares ocorre anomalia grave das
células de Purkinje, de modo significativo.
Outros instintos gradativamente menos
grosseiros completam o setor egoístico da personalidade; os órgãos cerebrais
respectivos podem identificar-se nas diversas áreas do córtex
parieto-occipital, no indivíduo humano. Finalmente, dentre os atributos ou
pendores altruísticos — apego, veneração, bondade, este último corresponde a
órgão situado na porção alta da convexidade frontal. Tais localizações são
também confirmadas por verificações anatomoclínicas e mesmo, no que é cabível,
pela experimentação em primatas subumanos e pela cirurgia
cerebral humana. Deixando à margem essa questão das localizações
funcionais no córtex cerebral, vejamos apenas, e em breves traços, outra
modalidade de correlações psicofisiológicas. Referimo-nos às estruturas
subcorticais que medeiam entre os instintos da conservação — individual e da
espécie — e o conjunto visceral, mencionadas linhas atrás.
Substrato anatômico da regência
vegetativa — Embora só em época relativamente recente haja sido objeto de
pesquisas sistemáticas, tal aparelhagem é já bem conhecida, pelo menos em
parte, na experimentação e na clínica. Consiste ela na chamada regência do
sistema autônomo — simpático e parassimpático — e se processa através dos
“núcleos vegetativos” da região hipotalâmica14,46,64. Situados em região
cerebral filogeneticamente antiga, como foi dito, semelhantes núcleos
centroencefálicos de substância cinzenta mantêm ligações complexas com as
estruturas vizinhas. São estas, conforme se acha bem estabelecido, as regiões
paleocorticais do cérebro: zona orbitária, cíngulo, retro-esplênio. Mantém-nas
também, inferíamos nós, possivelmente com os sistemas cerebelares, dada a
solidariedade que se manifesta na patologia. Experiências recentes, ulteriores
à 1ª edição deste capítulo, têm confirmado de modo indubitável esta suposição.
Não vem ao caso comentá-las.
Conquanto a experimentação haja
precisado correlações fisiológicas indiscutíveis, as deduções teóricas a
respeito do dinamismo desses núcleos na vida psíquica têm sido não raro
confusas e mesmo, em nosso entender, ilógicas. A princípio as investigações anatomopatológicas,
depois a neurofisiologia e por fim as técnicas da neurocirurgia fina, revelaram
que os referidos núcleos celulares regulam — além das funções sexuais em
sentido lato — as trocas metabólicas viscerais, a sudorese, o calor animal, a
circulação. Essas diferentes regências vegetativas competem especificamente a
núcleos distintos, os quais se reúnem em três grupos no hipotálamo: anterior,
médio e posterior. Mais recentemente os estudos bioquímicos puderam revelar
afinidades específicas dos diferentes núcleos para com substâncias químicas; e
essas descobertas de laboratório logo se mostraram poderosos recursos
terapêuticos, no domínio da psiquiatria e mesmo em distúrbios emocionais não
psicóticos. Por outro lado, as pesquisas atinentes aos dinamismos hormonais e
aos processos bioquímicos de ativação e de impedimento da transmissão neuronal
têm dado ênfase à participação do hipotálamo no
funcionamento psíquico. Sob esse ângulo têm cabimento as
considerações de Krapf: “Finalmente — e isto nos interessa aqui especialmente —
intervém nas alternativas do estado de consciência (vigília, sono
etc) e codetermina a motilidade de tipo emocional (expressiva)
e instintiva (impulsiva), provavelmente como estação “transformadora”
de atividades hormonais em inervações e vice-versa”52. Este campo de atuação
médica põe em evidência sintomas vegetativos que decorrem de processos
emocionais inconscientes e que só mediante a desmontagem psicanalítica são
passíveis de solução.
As precedentes considerações de ordem
neurovegetativa e psicofisiológica não autorizam porém, segundo entendemos, a
concepção teórica do hipotálamo como estância diretora da personalidade ou como
sede dos fenômenos instintivo-emocionais. Semelhante ilação doutrinária, agora
em voga, se exemplifica nas conclusões de Rof Carballo: “Já não é possível
continuar considerando o córtex como o nível superior de integração. Nele
se espraiam em grande superfície as projeções somatotópicas provenientes da
pele, dos músculos, dos órgãos dos sentidos e, ao mesmo tempo, projeções
somatotópicas viscerais muito menos diferenciadas, que com as anteriores
estabelecem relações de contigüidade. Porém a integração fundamental que
cria a unidade do ser vivo se realiza fora do córtex e mesmo fora
do cérebro, no sistema centroencefálico, ao articular-se a totalidade da
inervação visceral ou vegetativa com o sistema somático da vida de relação”.
Força é ter presente que os núcleos vegetativos do hipotálamo são autônomos
apenas em aparência: constituem aparelhagem subordinada fundamentalmente aos
instintos de nutrição e sexual como dissemos de início. Representam estação
intercalada nas vias córtico-corticais entre cerebelo e cérebro, por um lado: e
por outro, no sistema através do qual o cerebelo rege o mundo vegetativo, em que
se inclui o próprio encéfalo.
Bibliografia
8. Audiffrent, G. – Du cerveau
et de l’innervation – Dunod, Paris; 1869
9. Audiffrent, G. – Des maladies
du cerveau – Leroux. Paris, 1874.
14. Beaunis, H. – L’ évolution
du sistème nerveux – Baillière. Paris, 1890.
22. Cairo, N. – Elementos de
Fisiologia. 2ª ed., 2 vols. Haupt, Curitiba, 1926. (Ver vol. II, págs. De 61 a 663).
24. De Crinis, M. – Der
Affekt und seine körperlichen Grundlagen. Thieme. Leipizig, 1944.
46. Hess, W. R. – Psychologie in
biologischer Sicht. Thieme Stuttgart, 1962.
52. Krapf, E. E. – Psiquiatria,
Tomo I: Personalogia. Psiquiatria general. Paidós. Buenos Aires, 1959.
56. Lemos, J. Teoria normal do
cérebro e da inervação. Anais Assist. Psicopatas. Rio, I:67-81, 1931.
58. Leonhard, K. – Biologische
Psychologie, 3. Aufl. Barth. Leipizig, 1963.
59. Leonhard, K. – Instinkte und
Urinstinkte in der menschlichen Sexualität. Enke. Stuttgart, 1964.
61. Magoun, H. W. – a) The
waking brain. Thomas. Springfield, 1958. b) Le cerveau éveillé (trad. S. Dumont). PUF.
Paris, 1960. c) El cérebro despierto (trad. R. H. Peón). Prensa Médica
Mexicana. México, 1964.
64. Müller, L. R. – Die
Einteilung des Nervensystems nach seinen Leistungen, 2. Aufl. Thieme.
Stuttgart, 1950. (1. Aufl. 1933).


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